quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Formando Professores: Caminhos da Formação Docente

Formando Professores: Caminhos da Formação Docente

Wilson Correia

A Editora Ciência Moderna, do Rio de Janeiro, publica a obra 'Formando Professores: caminhos da formação docente'. O livro é organizado pelo professor Wilson Correia e apresenta trabalhos que são resultados de pesquisa e da prática de ensino e extensão universitária.

Com essa obra, o Centro de Formação de Professores (CFP) da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) oferece material sobre formação de professores aos formadores de formadores no Brasil inteiro.

O obra subsidia aqueles universitários que cursam licenciatura em nossas universidades e faculdades, não descartando o relevante oferecimento de um debate qualificado sobre formação de professores à sociedade.

Falando nisso, quem não guarda na memória a presença de um professor ou de uma professora que o tenha marcado pelo resto da vida?

Talvez, todos nós somos gratos a algum ensinante que nos tenha dado lições de vida, preparando-nos para o trabalho, para a condição cidadã, para a existência mais humana e significativa.

Contudo, como se formam o professor e a professora?

Este livro enfoca a formação de professores e apresenta caminhos para que esse preparo seja o melhor possível à altura da necessidade de aprender de nossos filhos e de todo e qualquer cidadão.

Foi pensando nisso que competentes formadores de formadores debruçaram sobre os aspectos fundamentais da formação docente para produzirem este livro 'Formando Professores: Caminhos da formação docente', que é uma contribuição à causa da educação, nossa prioridade número um.

AUTORES

Wilson Correia, (Organizador) Doutor em Educação (UNICAMP) e Professor Adjunto no CFP da UFRB.

Adriana Richit, Doutora em Educação Matemática (UNESP-Rio Claro) e Professora Adjunta na UFFS.

Anália de Jesus Moreira, Doutoranda em Educação (UFBA) e Professora Assistente no CFP da UFRB.

Cilene Nascimento Canda, Doutoranda em Artes Cênicas (UFBA) e Professora Assistente no CFP da UFRB.

Gilfranco Lucena dos Santos, Doutorando em Filosofia (UFPE-UFPB-UFRN) e Professor Assistente no CFP da UFRB.

Irenilson de Jesus Barbosa, Mestre em Educação (UFBA) e Professor Assistente no CFP da UFRB.

José Dilson Beserra Cavalcanti, Mestre em Ensino de Ciências e Matemática (UFRPE) e Professor Assistente na UFPE.

José João Neves Barbosa Vicente, Mestre em Filosofia (UFG) e Professor Assistente no CFP da UFRB.

Kleber Peixoto de Souza, Mestre em Educação (UnB) e Professor Assistente no CFP da UFRB.

Leandro do Nascimento Diniz, Mestre em Educação Matemática (UNESP) e Professor Assistente no CFP da UFRB.

Tatiana Polliana Pinto de Lima, Mestre em Educação (UNICAMP) e Professora Assistente no CFP da UFRB.

Boa leitura, caros leitores e leitoras, e um 2012 repleto de luz!

A aquisição pode ser feita diretamente com a Editora
Editora Ciência Moderna
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sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

MANIFESTO PELA DENÚNCIA DO CASO PINHEIRINHO À COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS



No dia 22 de janeiro de 2012, às 5,30hs. da manhã, a Polícia Militar de São Paulo iniciou o cumprimento de ordem judicial para desocupação do Pinheirinho, bairro situado em São José dos Campos e habitado por cerca de seis mil pessoas.

A operação interrompeu bruscamente negociações que se desenrolavam envolvendo as partes judiciais, parlamentares, governo do Estado de São Paulo e governo federal.

O governo do Estado autorizou a operação de forma violenta e sem tomar qualquer providência para cumprir o seu dever constitucional de zelar pela integridade da população, inclusive crianças, idosos e doentes.

O desabrigo e as condições em que se encontram neste momento as pessoas atingidas são atos de desumanidade e grave violação dos direitos humanos. 

A conduta das autoridades estaduais contrariou princípios básicos, consagrados pela Constituição e por inúmeros instrumentos internacionais de defesa dos direitos humanos, ao determinar a prevalência de um alegado direito patrimonial sobre as garantias de bem-estar e de sobrevivência digna de seis mil pessoas.

Verificam-se, de plano, ofensas ao artigo 5º, nos. 1 e 2, da Convenção Americana de Direitos Humanos (Pacto de São José), que estabelecem que toda pessoa tem direito a que se respeite sua integridade física, psíquica e moral, e que ninguém deve ser submetido a tratos cruéis, desumanos ou degradantes.

Ainda que se admitisse a legitimidade da ordem executada pela Polícia Militar, o governo do Estado não poderia omitir-se diante da obrigação ética e constitucional de tomar, antecipadamente, medidas para que a população atingida tivesse preservado seu direito humano à moradia, garantia básica e pressuposto de outras garantias, como trabalho, educação e saúde.

Há uma escalada de violência estatal em São Paulo que deve ser detida. Estudantes, dependentes químicos e agora uma população de seis mil pessoas já sentiram o peso de um Estado que se torna mais e mais um aparato repressivo voltado para esmagar qualquer conduta que não se enquadre nos limites estreitos, desumanos e mesquinhos daquilo que as autoridades estaduais pensam ser “lei e ordem”. 

É preciso pôr cobro a esse estado de coisas.

Os abaixo-assinados vêm a público expor indignação e inconformismo diante desses recentes acontecimentos e das cenas desumanas e degradantes do dia 22 de janeiro em São José dos Campos.

Denunciam esses atos como imorais e inconstitucionais e exigem, em nome dos princípios republicanos, apuração e sanções.

Conclamam pessoas e entidades comprometidas com a democracia, com os direitos da pessoa humana, com o progresso social e com a construção de um país solidário e fraterno a se mobilizarem para, entre outras medidas, levar à Comissão Interamericana de Direitos Humanos a conduta do governo do Estado de São Paulo.

Isto é um imperativo ético e jurídico para que nunca mais brasileiros sejam submetidos a condições degradantes por ação do Estado.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Hobsbawm destaca estudantes nos movimentos de 2011

Wilson Correia

Quem ainda não leu Eric Hobsbawm (nascido em Alexandria, Egito, em 09.06.1917)? Poucos, na universidade, pois esse historiador produziu farto material bibliográfico sobre a história e as revoluções.

Hoje, com 94 anos de idade, na ativa, ele analisa os movimentos ocorridos em 2011 (entrevista a Andrew Whitehead, BBC de Londres, em 23.12.11).

Na atualidade, se há possibilidade de alguma revolução, segundo ele, ela será feita pela classe média modernizada, e não pelos trabalhadores, cujas bandeiras foram ultrapassadas pelo processo de desindustrialização da sociedade.

Para ele, a revolução possível terá de ser como o que estamos vendo agora em 2011, com gente saindo às ruas para se manifestar a favor das coisas certas: “Estamos no meio de uma revolução. Mas não é a mesma em todos os lugares. Todas se parecem. Porém, há, em todas, o mesmo descontentamento”.

As forças mobilizadas nesses movimentos não pertencem aos tradicionais quadros políticos, mas em novos protagonistas que saem às ruas e praças em defesa de valores anticapitalistas. “As forças em movimento são semelhantes: classe média em modernização, estudantes jovens e a tecnologia que torna muito mais fácil mobilizar quem queira manifestar”.

Aí o valor e o significado político do uso das mídias sociais, potencializadas pela massificação da internet, que levam as pessoas às ruas e conduzem um verdadeiro exército ao palco do espaço público das cidades onde emergem com protagonismo contestatório.

Esses manifestantes formam o exército que deixa para trás a velha esquerda. “A esquerda tradicional foi formada para um tipo de sociedade já superado ou já saindo de cena. A crença daquela esquerda era a de que o movimento trabalhista de massa criaria o futuro”.

Para Hobsbawm, “Agora, o trabalho mudou. Fomos desindustrializados. Aquele projeto da esquerda deixou de ser viável”. Por isso, essas novas forças é que poderão fazer transformações sociais.

Por conta disso, “As mobilizações de massa atuais mais efetivas nascem de uma classe média modernizada e de um grande corpo de estudantes. São fortes em países onde a população jovem, homens e mulheres, formam a parte maior da população”.

Será que estamos mesmo nos conscientizando de que uma nova sociedade é realmente possível?

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Educação e sexualidade

O Grupo de Pesquisa e Extensão em Filosofia da Educação (GPEFE) apresenta uma Entrevista com Profa. Dra. Cláudia Bonfim. Ela fala sobre educação e sexualidade. Vale a pena conferir!

GPEFE: Como você vê a educação para a vivência da sexualidade nos ambientes da família e da escola na atualidade?
CB: Historicamente, a sexualidade sempre foi um tema velado, reduzido ao ato sexual e à reprodução. Esse é um dos motivos que ainda hoje deixam essa temática à margem de um debate nas instituições. Fala-se de sexo em todo lugar: na mídia, na sociedade, direta ou indiretamente, mas de maneira banal, mercantil, exacerbada, genitalista. Não se tem a dimensão de que a sexualidade é muito mais ampla do que isso.

GPEFE: Também na escola?
CB: Sim! Na escola, quando se fala, continua-se reforçando o caráter reprodutivo, biologista, genitalista e negativo da sexualidade, com palestras quase sempre ligadas à DST´s e Aids. Consolidando a visão reducionista e negativa da sexualidade.

GPEFE: Isso restringe a visão sobre a sexualidade...
CB: A sexualidade ainda é um tema restrito, porque as pessoas não foram educadas para conhecê-la. Aprendem que é feia, errada, suja, perigosa. Sentem-se envergonhadas ou tímidas. Desconhecem seu próprio corpo. Tratam-na de forma superficial. Não sabem como abordá-la.

GPEFE: Como abordar a temática da sexualidade?
CB: Queremos deixar claro que não estamos desconsiderando a importância do conteúdo biológico: as informações biológicas são fundamentais. Mas não são suficientes para a superação das problemáticas atuais. Temos que abordar a sexualidade com toda a seriedade e naturalidade que ela envolve.

GPEFE: Isso implica uma visão positiva sobre a sexualidade...
CB: Nossa abordagem tem que deixar de ser só do lado negativo da sexualidade, como tem sido feita quase sempre até hoje. Nós precisamos também disso. Mas só isso não educa ninguém. Aliás, os índices nos mostram isso. Não basta distribuir preservativo, nem colocar propaganda para o uso deles na televisão e fazer palestrar ensinando como usá-los, bem como falar de doenças e do lado negativo da sexualidade. Não basta PREVENÇÃO sem EDUCAÇÃO!

GPEFE: O enfoque na saúde é suficiente para uma educação emancipatória sobre o assunto?
CB: O foco na saúde é extremamente importante, mas insuficiente para promover a compreensão da sexualidade e levar as pessoas a se conscientizarem sobre sua importância para nossa qualidade de vida. Quanto mais silenciado um assunto, mais ele provoca a curiosidade. Portanto, abordem a sexualidade de maneira tranquila, natural, dizendo, sim, que ela é bonita, prazerosa. Que é a celebração da vida. Mas conscientizando os adolescente de que a sexualidade, como tudo na vida, exige maturidade física, psicológica, além do tempo certo para acontecer. Que não podemos queimar fases tão fundamentais em nossa vida. Que não podemos deixar de curtir e sentir prazer em ser criança, em ser adolescente, mostrando que todas as fases da vida tem seus encantos, seus prazeres e aprendizagens necessárias para nossa formação enquanto seres humanos.

GPEFE: Isso requer uma abordagem mais global da temática...
CB: Requer. Acreditamos que as vertentes anatômicas e fisiológicas não são suficientes para explicar a sexualidade, porque sexualidade não é uma questão apenas de corpo, como muitas pessoas pensam, nem se reduz ao ato sexual em si, ao sexo. A sexualidade é uma totalidade. Envolve nossa subjetividade: sentimentos, pensamentos, nossa realização como pessoa, nossa autoestima. A Sexualidade é um dos núcleos estruturantes e essenciais da personalidade humana, que não se reduz a alguns momentos e comportamentos. A sexualidade é muito mais que prazer momentâneo. É algo maior: é bem-estar.

GPEFE: Na prática, como escola e família podem mostrar isso?
CB: Penso que na escola e na família se dão as primeiras referências sobre as quais construímos a visão que temos de nós mesmos, corporal e subjetivamente, e, com base nelas, recursos para compreendermos e vivermos nossas relações afetivo-sexuais na idade adulta. Se essa educação sexual, ainda que informal, for carregada de pudores, limitações, dogmas, tabus, visões negativas e reducionistas, isso nos impedirá de viver nossa sexualidade de maneira saudável, qualitativa e plena. Portanto, a escola não pode mais continuar ignorando que é no espaço escolar que nascem os primeiros anseios sexuais, os primeiros desejos de encontro com o outro, os primeiros abraços, os primeiros beijos. É no espaço escolar que nascem, de fato, as primeiras interações sociais, a construção de identidades e subjetividade, o que significa que precisamos entender que a sexualidade está em cada um de nós, inerente ao nosso ser, desde que nascemos. Nosso corpo e nossa mente (psique) são o berço de todas as significações da vida.

GPEFE: Aí reside a importância da atuação da escola...
CB: Entendemos ser a escola uma das instituições mais importantes e privilegiadas de formação de masculinidades e feminilidades, de superação de dogmas, tabus e preconceitos arraigados na visão patriarcal da sexualidade segundo a qual fomos educados, visto que a família também se encontra enraizada numa educação repressiva e ainda não obteve os esclarecimentos necessários para a superação de sua visão sobre a sexualidade.

GPEFE: Nessa perspectiva, é preciso um trabalho familiar sobre valores a respeito da sexualidade...
CB: Eu disse anteriormente: acredito que os primeiros valores, sejam sexuais ou sociais, devem advir da orientação familiar. Porém, sabemos que a família, lamentavelmente, deixou para a escola mais essa demanda. Diante de uma sociedade sexualmente em crise, onde é cada dia maior número de gravidez não planejada, casos de pedofilia, violência sexual em todas as faixas etárias, doenças sexualmente transmissíveis, nossa ação deve ser educativa. Entendo que essa demanda da Educação Sexual deveria ser da família, mas muitos pais, por medo de perder o respeito e a autoridade perante os filhos, outros por não conseguirem compreender e viver de maneira plena suas próprias sexualidades, condicionados por dogmas religiosos, ou por desconhecimento, sentem-se constrangidos e deixam de abordar o tema.

GPEFE: Enquanto isso, a  banalização segue a diante...
CB: De fato, temos que ter consciência de que vivemos numa sociedade em que a sexualidade foi banalizada e mercantilizada. Nós, educadores, vamos também fechar os olhos para uma problemática tão agravante? Diante de uma sociedade capitalista em que a mídia, especialmente a TV e Internet, induzem à erotização precoce, motivam novos padrões de relacionamentos e comportamentos sexuais, não podemos mais ignorar a problemática que se desenvolve em torno da sexualidade.
Portanto, se a família não tem proporcionado às crianças, adolescentes e jovens a formação e o discernimento sobre a sexualidade, consideramos que a escola não pode agir da mesma forma, ignorando tantos problemas sociais decorrentes da falta de uma Educação Sexual emancipatória e comprometida com o bem-estar do ser humano. A omissão apenas contribui para agravar o problema, gerar e aumentar preconceitos. A mídia é reflexo da sociedade, ressonância; ela não é causa. Portanto, a mídia, sim, incita e incentiva a vivência de uma sexualidade, mas a sociedade é que permite que isso ocorra.

GPEFE: É aí que volta a família...
CB: A família é a base na qual os sujeitos deveriam receber as primeiras informações referentes à sexualidade, sendo essa a primeira referência para que a criança construa sua identidade sexual e sua concepção primária de sexualidade e de cultura, identidade mais cultural do que inata. No entanto, a família condicionada pela visão histórica da sociedade não tem, em sua maioria, contribuído para a educação sexual. Muitas famílias silenciam, ignoram ou preferem ocultar a sexualidade dentro da educação de seus filhos. De um lado temos pais repressivos e, de outro, pais permissivos. E ambos acabam por educar de maneira negativa. Precisamos criar dentro do espaço social e escolar projetos que tragam a família para se reeducar, para debater sobre o tema e ampliar suas visões para que possam orientar seus filhos.

GPEFE: Além desse trabalho articulado entre família e escola, o que mais se pode fazer em nome de uma educação sexual saudável de todos nós?
CB: Nesse sentido, destaco a necessidade de projetos, palestras de Educação Sexual que envolvam a família, a qual não se vê preparada para dialogar sobre a sexualidade e, abordando-a, o faz de forma repressiva, incoerente e inadequada. A escola é subsidiária da família, portanto os pais devem ter consciência da importância e da necessidade de abrirem um espaço de diálogo com os filhos, fornecendo informações sobre a sexualidade, seja pelo diálogo, de livros de educação sexual, vídeos e/ou reflexões sobre filmes, programas televisivos, novelas, entre outros, tanto quanto conversas do dia-a-dia sobre valores e comportamentos que devem ser adotados sobre o que é, ou não, adequado e sobre o que deve ser rejeitado sobre esse assunto, desenvolvendo atitudes, valores, capacidade de discernimento e criticidade em relação ao próprio comportamento e de outros, para que possam viver uma sexualidade com liberdade, responsabilidade e naturalidade.

GPEFE: Redirecionando nossa conversa, como enfrentar a formação sexista de nossas crianças e jovens, essa que está na família e na escola?
CB: Primeiro, por meio de uma reeducação sexual de todos nós. Não se faz Educação Sexual de maneira dogmática ou doutrinária. Nem, todavia, pode-se sustentar um projeto de Educação Sexual sobre o voluntarismo espontaneísta, mesmo aquele carregado de boas intenções e altruísmo. A vontade deve ser o motor das práticas transformadoras, mas esta somente se completa com a consciência crítica que deve ser sistematicamente buscada pela Ciência e trabalho intelectual de pesquisa e aprofundamento, ou seja, pela formação.

GPEFE: Esse trabalho requer cuidado desde a graduação então...
CB: Sim... a inserção de uma disciplina na grade curricular da graduação dos cursos de formação de professores, Pedagogia e Licenciaturas, que supere a abordagem dos aspectos biológicos. Eis, aí, nossa defesa da inserção de uma disciplina na matriz curricular da graduação dos cursos formação de professores, Pedagogia e Licenciaturas, que supere a abordagem dos aspectos biológicos. Embora saibamos que apenas isso não dará conta da problemática de gerações e gerações, mas pode ajudar a amenizar isso. Necessitamos de projetos e ações coletivas.

GPEFE: Além disso, que mais seria preciso?
CB: Precisamos de uma política pública para a sexualidade, que desenvolva um programa contínuo de educação sexual crítica, que forme consciência e valores éticos, que leve a compreensão da vivência da sexualidade em sua totalidade, que aborde a construção histórica, política, social e cultural da sexualidade humana, para que possamos compreendê-la e vivê-la de maneira qualitativa, saudável, prazerosa e emancipatória.

GPEFE: Concretamente....
CB: ... Precisamos, primeiro, esclarecer aos educadores e gestores o que é sexualidade, sua dimensão, sua importância na vida, nas relações, na formação do ser humano. Com base nesse entendimento, é possível começar a pensar na superação dos preconceitos e tabus relacionados à sexualidade. Já dizia Platão que a sexualidade não está separada da vida. Eros diz respeito mais à alma que ao corpo. Por isso, a mente é nosso maior órgão sexual. Nossa sexualidade não é pré-determinada. Vai sendo construída em nossas vivências afetivas e experiências, familiares, culturais e sociais. Ao falar de educação afetivo-sexual emancipatória, temos que pensar na pessoa em sua totalidade e falar de afetividade. É um aspecto central das nossas vidas, é desenvolvimento e relacionamento humano. E está presente desde que nascemos até morrermos. Está ligada a tudo o que nos dá prazer. À forma como nos relacionamos conosco mesmos, com o outro, com o mundo. A sexualidade envolve, além do nosso corpo, nossa história, costumes, relações afetivas, vivências, cultura, subjetividade. É um dos núcleos estruturantes e essenciais da personalidade humana, que não se reduz a alguns momentos e comportamentos, mas como um complexo que se integra no pleno e global desenvolvimento da pessoa.

GPEFE: O que a escola pode fazer para encaminhar uma educação sexual para a liberdade, a pluralidade, o respeito, o prazer nutritivo e a realização humana?
CB: Abordando também seu lado positivo, natural, significativo, belo, da sexualidade, como afloração da vida, perpetuação, humanização do próprio ser humano, como capacidade de encontro; não apenas de corpo, mas de alma, como capacidade de amar. A sexualidade envolve a magia do toque, troca de afetos, a união de corpos, o desnudar de almas. Alguns vão me dizer que essa educação afetivo-sexual crítica e emancipatória que defendo é uma utopia. Você acredita que essa educação sexual emancipatória é uma utopia? Pode ser. Mas como diria o poeta Eduardo Galeano, a utopia serve para caminhar.

GPEFE: Eu creio que a utopia alimenta o agir...
CB: Sim. O que não podemos é ficar assistindo estagnados à desumanização e à banalização de um dos aspectos mais belos da vida. Sexualidade, a palavra em si, traz uma espécie de encanto, afloração da vida, perpetuação, humanização do próprio ser humano. Ela sugere capacidade de amar. A sexualidade envolve a magia do toque, troca de afetos, a união de corpos, o desnudar de almas. Para a maioria da humanidade, porém, condicionada pelos dogmas religiosos e pelo falso moralismo social, arraigada num sistema patriarcal, falsamente moralista, numa sociedade hegemonicamente capitalista, em que o valor dos corpos é medido apenas pela força de trabalho e do potencial capital que esse corpo pode produzir, sexo e sexualidade ainda são assombrosos, pecaminosos, vergonhosos, ocultos, falados de forma velada, reprimida, secreta. Desejos são condenados, amores são limitados e restritos.

GPEFE: Isso leva a uma visão distorcida da sexualidade?
CB.: Leva! Quem dera a humanidade pudesse compreender a beleza e a potencialidade que a sexualidade nos traz, e o quanto mais humanos podemos ser, o quanto podemos viver plena, intensa e profundamente este aspecto tão essencial da vida. Então, como pessoa, mulher, mãe, docente e pesquisadora, os convido as pessoas para caminharmos rumo ao conhecimento e à superação dos embotamentos sociais, das vendas dogmáticas que trazemos nos olhos, dos tabus e dos preconceitos sociais, do embrutecimento capitalista dos corpos, da banalização dos afetos e da sexualidade. Convidamos todos a ler mais sobre Sexualidade, História, Filosofia, Epistemologia e a abrirmos nossas mentes e libertarmos nossos corpos, para que possamos entender que a vida por si só é o maior prazer de que podemos desfrutar; e que ela só se renova, se multiplica, se eterniza através dessa dimensão tão sublime, e, ao mesmo tempo, tão mal-compreendida pela nossa cultura e sociedade.

GPEFE: Essa educação cultual é importante à nossa realização...
CB: Claro! Para finalizar, vou parafrasear Riane Eisler: o dia que conseguirmos compreender de fato a nossa sexualidade, conseguiremos viver num mundo melhor e só então seremos capazes de perceber os mitos e os dogmas com assombro. Nos surpreenderemos com o fato de a história mais famosa da origem humana, a de Adão e Eva, no Gêneses, nada dizer de positivo em relação ao sexo, ao amor e ao prazer, de apresentar a busca humana de uma consciência superior como maldição, e não uma benção, e de sequer mencionar a admiração e reverência que experimentamos quando contemplamos e tocamos alguém que amamos.

GPEFE: O que você pensa sobre as abordagens sexistas da vida particular e social que, a pretexto de buscarem a igualdade de gênero, acabam por criar sectarismos, guetos e ódios de uns contra os outros?
CB: Se as pessoas se conscientizassem da importância da educação afetivo-sexual desde a infância, certamente o mundo seria melhor. Conseguiríamos diminuir esse quadro de violência sexual de todas ordens: pedofilia, violência contra a mulher, discriminação sexual, de preconceitos de gênero, de homofobia (e alerto: quanto mais se classifica as pessoas, quanto mais se formam grupos estanques, mais se segrega). Em vez de contribuirmos para a formação desses guetos e criarmos sectarismo, deveríamos nos unir todos em prol da humanização das pessoas. Mais do que pensar em diversidade sexual, TEMOS QUE DEFENDER A DIVERSIDADE HUMANA! Nossa luta deve ser por um mundo ONDE TODAS AS PESSOAS SEJAM RESPEITADAS, e não pela sua cor, sua religião, sua raça, sua etnia, sua orientação sexual, sua condição física, social ou cultural, mas, sim, pelo simples fato de serem HUMANAS, de possuírem vida e de necessitarem amar e serem amadas.

GPEFE: Sexo e felicidade: como ligar as pontas desses nós?
CB: Penso que as pessoas precisamos nos permitir vivenciar a sexualidade de maneira afetiva e plena. O mito do amor romântico ensina as pessoas a procurarem tudo fora de si, no outro. Projeta-se no outro todas as expectativas, projeta-se no outro a felicidade, que, na verdade, está dentro de cada um de nós. Essa coisa de “metade da laranja”, “encontrar a metade que lhe falta”, “a tampa da sua panela”, as pessoas precisam superar isso e entenderem que nós somos inteiros e não metades. E o outro vem para nos COMPLEMENTAR e que é bem diferente de COMPLETAR. Por isso, as pessoas vivem frustradas. E, em relação ao sexo, para se ligar esse nó falta cumplicidade, falta autoestima, falta entrega plena. Falta erotismo nas relações. E há que se dizer que erotismo é diferente de pornografia, e é que o alimenta o desejo sexual. Já dizia Platão "Depois de muito pensar, descobri que Eros, esse deus poderoso, diz mais respeito às dimensões da alma do que ao corpo!". Sexo se alimenta de erotismo, ou seja, da surpresa, do mistério, do inesperado. Assim como o amor, o tesão precisa ser alimentado.

GPEFE: É essa falta de visão mais global sobre a sexualidade o que permite a mecanização do ato sexual, desprovido de encanto?
CB: Tudo indica que sim. O ato sexual tem se mecanizado tanto que há pessoas que hoje em vez de fazer amor com um parceiro se habituaram a usar vibradores e bonecas infláveis (eu penso que isso é muito triste) e não caracteriza apenas carência sexual, porque, como eu disse, sexo de toda forma está à venda. É ainda pior: isso caracteriza a carência afetiva, as pessoas não tem alguém com se relacionar afetiva e sexualmente, eis a diferença. Precisamos superar os preconceitos e aquela ideia primeira, a de que fomos condicionados, moralmente, ou seja, precisamos entender o sexo como fonte de prazer e afeto (eventualmente como reprodução). O ato sexual é gerador de energia, de cumplicidade, de intimidade, de alegria, de prazer, de sentimentos necessários, prazerosos, bonitos e não o contrário, como alguns ainda teimam em acreditar.

GPEFE: São essas crenças que alimentam tabus e preconceitos em nossa sociedade?
CB: Os tabus e preconceitos arraigados em nossa educação sexual costumeira não nos permitem viver a plenitude de nossa sexualidade, nem nos descobrirmos por inteiros. Se nos permitirmos viver o erotismo com naturalidade e afetividade, certamente podemos ser mais felizes sexualmente. Não se culpe por amar-se sem medos. Culpe-se se não conseguir amar. Amar não é pecado, assim como cultivar o amor com doses de sensualidade, erotismo, sedução e prazer jamais será. Só quem vivencia ou vivenciou a experiência do sexo com afetividade pode entender sobre o que dizemos, pois já experimentaram o prazer em sua plenitude. Sexo por sexo é apenas sensação. Agora, sexo-com-afeto passa a ter sentido e significado. As fantasias eróticas são formas de potencializarmos nossa vivência sexual, contribuindo para que possamos transpor limites individuais e sociais morais, transcender os tabus e preconceitos, estimular-nos e estimular o outro a nos prepararmos para receber o outro. Assim como nos produzimos para uma festa, tornando-nos mais atraentes e se sentindo-nos mais seguros, devemos proceder quando o assunto é experiência sexual, pois, afinal, o ato sexual amoroso é a maior celebração de que podemos participar. É a festa de celebração do afeto e da vida.

GÉFE: A não vivência nessa perspectiva é responsável pela falta de comunicação entre as pessoas?
CB: Seguramente, sim. Quantos casais convivem, e não se conhecem, nem são, de fato, íntimos. Nada sabem sobre o outro. Lamentável, pois deixam de viver e saborear momentos que ambos desejaram, que poderiam ser comuns, mas que não foram realizados porque nunca foram declarados. Com isso, muitos casais se separam, e não é porque não existia amor, não existia era cumplicidade e compreensão da própria sexualidade. Essa falta de conhecimento é fator preponderante nos divórcios e causa da prostituição, a qual aumenta a cada dia.

GPEFE: Onde falta entrega humana aparecem os estranhamentos, incluindo o do exercício da sexualidade de maneira mecânica...
CB: É por aí... Quando alguns parceiros não entendem a sexualidade de maneira saudável, natural, e, sim, de maneira dogmática e moralista, o outro acaba, muitas vezes, indo buscar fora do relacionamento a realização das suas fantasias, tornando-se um dos fatores que alimentam a rede de prostituição. Reprimir as fantasias que são instintos naturais e que são saudáveis que pode acarretar problemas emocionais e psicológicos. O autoconhecimento é fundamental. Precisamos nos conhecer enquanto homens ou mulheres, em todos os sentidos. Inclusive, a nossa sexualidade, nosso corpo. Não defendo uma sociedade banal, sou contra uma sexualidade mecanicista, muito menos de uma sexualidade mercantil e puramente hedonista. Mas penso que temos o direito de vivenciar a sexualidade de maneira prazerosa e em sua forma mais sublime, mediante a troca de carinho, a cumplicidade, a comunhão, no prazer, do ato que faz com que duas pessoas se sintam uma só. Mas, sem medos, culpas ou tabus, sufocando esse momento de celebração da vida. Afinal, como tudo na existência, como qualquer relação, o desejo sexual precisa ser cultivado.

GPEFE: Como o leitor pode entrar em contato com sua produção (blog, livro, trabalhos e assemelhados)?
CB: Em meu blog tenho centenas de textos e áudio-posts abordando todos os aspectos relacionados à educação e sexualidade. Sempre com o objetivo de provocar reflexões educativas que levem as pessoas a entenderem a necessidade e a importância da educação sexual de maneira crítica e emancipatória, vislumbrando a vivência da sexualidade maneira qualitativa, saudável, prazerosa, realizadora e afetiva. O endereço é o que segue: http://educacaoesexualidadeprofclaudiabonfim.blogspot.com/No Youtube também tem um canal com todos os meus áudio-post sobre educação sexual. E meu email de contato é profdraclaudiabonfim@gmail.com. No blog, encontram-se as formas de aquisição do meu livro sobre a temática desta entrevista. Também temos nossa página no Facebook. É só chamar...


segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Filosofia na escola: desafios

Entrevista com o professor Silvio Gallo

Ensino de Filosofia: os principais desafios

No dia 02 de junho de 2008, o presidente em exercício, José Alencar, sancionou a lei 11.684 que determinou a presença da Filosofia como disciplina obrigatória nas três séries do Ensino Médio brasileiro. Para quem olhava de fora, o evento parecia o fim de um longo processo. Para aqueles que há anos lutavam pela aprovação dessa lei, ele representou o início de uma nova luta: garantir a qualidade no ensino da Filosofia. O Prof. Silvio Gallo (UNICAMP), em entrevista à seção Filosofia na Escola da ANPOF, fala sobre os atuais desafios que enfrentam os profissionais ligados ao ensino dessa disciplina e apresenta em linhas gerias os resultados de suas pesquisas sobre este tema.

Por Juliano Orlandi


Juliano Orlandi – Como o professor avalia o processo político que culminou na aprovação da Lei 11.684/08 e o retorno da Filosofia aos currículos do Ensino Médio brasileiro?
Silvio Gallo - Muitos falam em “volta da Filosofia” aos currículos, mas penso que isso seja um equívoco; como pode “voltar” algo que nunca esteve? Porque a Filosofia nunca esteve nos currículos como está agora, de forma plena e universal, nos três anos do Ensino Médio, em todos os estados brasileiros. O que tivemos em outros momentos da história foram presenças particulares da Filosofia, em uma ou outra série, em uma ou outra modalidade da educação média, ou então de forma optativa para as escolas. Desta forma como foi aprovada pela Lei 11684/08, é uma situação inédita em nossa história.


JO – Como então avaliar essa nova situação? 
SG É uma situação muito interessante para quem pensa que o ensino da Filosofia pode oferecer algum diferencial e aportar qualidade à formação dos jovens estudantes. Mas, por outro lado, é um momento também muito complicado, pois temos que mostrar a que viemos. Se a obrigatoriedade é fruto de uma luta que começou na década de 1970 e teve muitos momentos distintos, é também verdade que se a Filosofia não se consolidar como disciplina na educação média poderá ser retirada novamente, com uma “canetada” qualquer. Se a mobilização e a luta para sua inclusão foram grandes, penso que o trabalho agora é ainda maior, pois temos que garantir que a Filosofia seja ensinada efetivamente e o seja de modo significativo. Se não conseguirmos provar, com um bom trabalho que a Filosofia é uma contribuição importante para a formação dos jovens brasileiros, ela será retirada. E aí talvez não tenha volta possível...


JO – O que podem fazer as mantenedoras das instituições educacionais para contribuir na consolidação da Filosofia no Ensino Médio? 
SG – Para as mantenedoras, penso que a principal tarefa seja a de comprometer-se com a contratação de bons professores de Filosofia, com formação específica na área. Sabemos que não poucas escolas, tanto públicas quanto privadas, atribuem as aulas de Filosofia a outros profissionais, como forma de preencher sua carga de trabalho, ou mesmo porque não encontram professores com formação específica em Filosofia. Porém, nenhum dos casos se justifica. Há profissionais habilitados em Filosofia na maior parte das regiões brasileiras; naquelas em que há carência, é dever das universidades preparar esses profissionais. E sabemos que desde a aprovação já foram abertos vários cursos de licenciatura em Filosofia.


JO – Além da contratação de profissionais com formação na área, o que mais as mantenedoras podem fazer? 
SG – Tem havido um movimento por parte de algumas redes públicas estaduais de definir uma matriz curricular para a Filosofia, acompanhada ou não de produção de material didático. Destaco dois casos: o do estado do Paraná, que fez este movimento ainda antes da aprovação da obrigatoriedade da disciplina, em um processo de ampla participação dos professores da rede, com consultoria de universidades. Após a definição da matriz curricular, foi produzido, por uma equipe de professores de Filosofia do Ensino Médio, um livro didático, editado e publicado pelo próprio Estado e distribuído para toda a rede. E o caso do estado de São Paulo, que também definiu uma matriz curricular, com uma equipe de especialistas, que em seguida produziu uma série de “cadernos do professor” e depois de “cadernos do aluno”, definindo o percurso a ser trabalhado nas aulas de Filosofia.


JO – O professor avalia positivamente esses dois casos? 
SG – Não vou entrar no mérito da análise destas duas iniciativas; ambas possuem seus pontos fortes e seus pontos fracos e não teríamos espaço aqui para isso. Mas é importante destacar que a opção paulista recebeu muitas críticas por não ouvir os professores, que sentiram como uma “imposição” o material produzido. De toda forma, penso que a definição de um currículo básico e a produção ou escolha de um material didático apropriado é uma necessidade, desde que cumpra-se aquela primeira necessidade: a contratação de professores com formação específica em Filosofia.


JO – No que diz respeito aos materiais didáticos para o ensino da Filosofia, muitos professores se queixam que eles são escassos. Como o professor avalia essa questão? 
SG – Tempos atrás, um orientando de doutorado fez um amplo levantamento e análise dos livros didáticos disponíveis no mercado editorial brasileiro, e chegamos a um número próximo a trinta, o que não é pouco. Penso que hoje já tenhamos mais do que isso. A questão é que, como a Filosofia é diversa, diversos também são nossos materiais didáticos. Temos uma predominância de livros que oferecem uma organização temática para o ensino da Filosofia, mas temos também vários manuais que propõem uma organização histórica. Penso haver materiais de grande qualidade, mas também textos de qualidade ruim. Daí a necessidade de um professor com conhecimento da área, que saiba escolher um material de boa qualidade, que se adapte bem à realidade e necessidade de seus alunos. E, mais importante, um professor que saiba usar o material didático como apoio e instrumento e não como centro do processo, como uma espécie de “muleta” para suas aulas. Infelizmente, é isso que vemos quando o professor de Filosofia não tem formação na área ou não é bem formado. E aí não tem material didático que resolva, não há aula de Filosofia que resista...


JO – Em relação aos professores das outras disciplinas, há alguma dificuldade especial enfrentada pelos docentes de Filosofia no Ensino Médio? 
SG – Penso que os problemas práticos do professor de Filosofia não sejam diferentes dos problemas práticos de qualquer professor... Hoje, especialmente, a dificuldade de leitura por parte dos estudantes, um desinteresse generalizado pela escola e por aquilo que ela oferece. A questão é que o professor não pode idealizar a escola, idealizar o aluno. As grandes críticas que vemos hoje à escola devem-se ao fato de que ela não cabe naquilo que é idealizado pelos professores. Talvez a maior qualidade de um bom professor seja seu senso de realidade e a capacidade de atuar nas condições reais da escola. Diria, então, que a questão está na criatividade e na capacidade de adaptação do professor, que precisa encontrar, em cada turma que leciona, o tom correto, a forma de penetrar em seu universo. Para isso, é necessário ter um repertório bastante amplo, do qual o professor disporá na medida das necessidades de cada situação.


JO – O professor julga que os cursos de Licenciatura em Filosofia têm oferecido esse repertório aos seus estudantes? 
SG – Minha opinião é que esse é nosso grande desafio hoje. De forma geral – e aqui corro o risco de toda generalização – nossos cursos nunca se esforçaram, de fato, para formar professores de Filosofia para o Ensino Médio. Primeiro, porque não havia aulas; depois, porque elas eram escassas. Mas, também, porque em larga medida os departamentos de Filosofia pensavam que sua função era ensinar Filosofia; ensinar a ensinar seria a tarefa de pedagogos, dos departamentos de Educação. Vi isso em algumas universidades em que trabalhei e em muitas universidades que visitei e penso que seja um completo equívoco. A formação do professor de Filosofia – e penso que isso possa ser estendido a outras disciplinas – não pode dissociar o conhecimento específico da Filosofia do conhecimento do campo educativo. É preciso que um atravesse o outro, que um contamine o outro. Quando um professor dá uma aula sobre a teoria da predicação em Aristóteles (para tomar um exemplo qualquer) é necessário que ele se preocupe também em como este tema pode ser trabalhado com um adolescente no Ensino Médio. Porque ensinar neste nível não pode ser uma reprodução direta de como se ensina na universidade. Se há saberes pedagógicos específicos que o licenciando em Filosofia vai aprender com o campo da Educação, isso não significa que os professores de Filosofia possam se descomprometer com a tarefa do ensino da Filosofia.


JO – Em sua opinião, portanto, os cursos de Licenciatura em Filosofia devem se adaptar à nova realidade do Ensino Médio. 
SG – Penso que após a aprovação da obrigatoriedade da disciplina Filosofia, nossos cursos de Licenciatura estão se repensando e precisam se repensar. A formação de bons professores é que poderá consolidar a Filosofia no Ensino Médio. Sem bons professores de Filosofia isso não acontecerá. E não teremos bons professores de Filosofia se não tivermos bons cursos de Licenciatura em Filosofia. Sintetizando, penso que precisamos admitir que, historicamente, nossos cursos não estiveram comprometidos com a formação de professores para a educação média e, portanto, essa formação nunca foi, efetivamente, boa. E que hoje é absolutamente necessário que nos empenhemos em levar a qualidade dos bons cursos de bacharelado em Filosofia também para a licenciatura.


JO – Essa reorientação dos cursos de licenciatura significaria uma preocupação maior com a prática docente e com a antecipação dos problemas que os profissionais enfrentariam no cotidiano escolar? 
SG – Penso que os problemas, de fato, não podem ser antecipados, muito menos resolvidos. Penso que o professor não se forma apenas na universidade, ele não sai pronto. Ele precisa sair com uma boa base, mas é sendo professor que ele se torna, de fato, professor. Isto é, há muito da prática docente que só aprendemos na própria prática docente. Não adianta nos dizerem como é, como se faz ou nos encherem de milhares de horas de estágios de observação da sala de aula. Isso tudo é importante, na justa medida, mas nada disso nos prepara em absoluto para os desafios da sala de aula. Precisamos chegar ao ensino com uma boa bagagem, para que possamos, na prática, aprender a lidar com essa bagagem. Ninguém pode fazer esse percurso por nós, por cada um de nós.


JO – No que consistiria essa bagagem? 
SG – O que compete a um bom curso de Licenciatura em Filosofia é dotar o futuro professor de um sólido e amplo conhecimento da Filosofia, especialmente que ele aprenda a orientar-se na Filosofia, a orientar-se no pensamento, bem como um bom conhecimento da realidade escolar, que faça com que ele não idealize a escola e o aluno. E, sobretudo, que ele esteja o tempo todo preocupado em como ensinar aquilo que ele aprende de Filosofia, que não faça isso desconectado da sua tarefa futura de ensinar. Deste modo, penso que a universidade pode preparar o futuro professor não para antecipar ou resolver de antemão os problemas práticos que aparecerão, mas para que ele saiba identificar os problemas e tenha estofo e bagagem para resolvê-los, na medida em que aparecerem.


JO – E, no que diz respeito às concepções de Filosofia e de Ensino da Filosofia, as Licenciaturas ofereceram qual orientação aos professores que hoje estão em atividade no Ensino Médio? 
SG – Pensando especificamente no Ensino de Filosofia, há uma ideia que se generalizou dentre nós: aquela que afirma que a Filosofia desenvolve o “senso crítico” dos estudantes. Esse discurso foi central nas décadas de 1970 e 1980, na medida em que a luta pela inclusão da Filosofia nos currículos era parte da luta contra a ditadura. Porém, parece-me que essa posição é complicada. Por um lado, porque se a crítica é inerente à atividade filosófica, politicamente sabemos que, ao longo da história, se ela serviu para questionar os poderes instituídos, serviu também para garantir essa instituição. E por outro, porque se defendemos uma educação crítica, essa tarefa não pode ser exclusiva da Filosofia, mas precisa ser assumida por todas as disciplinas. Na minha experiência, há uma certa dificuldade dos estudantes em assumir uma concepção de Filosofia (o que chamei, antes, de orientar-se no pensamento), na medida em que nossos cursos, mais comprometidos com o bacharelado do que com a licenciatura (isto é, mais comprometidos em formar o pesquisador do que o professor) não investem nisso. E isso dificulta, em muito, a atuação do professor, pois, para ensinar Filosofia é preciso colocar-se na Filosofia, movimentar-se com desenvoltura por sua história. Assim, na dificuldade de uma visão mais clara, eu diria que predomina uma concepção da Filosofia como formação crítica, às vezes uma visão da Filosofia como História da Filosofia, que mais dificultam do que ajudam a produzir uma boa aula de Filosofia.


JO – Do ponto de vista prático (didática, metodologia, uso de materiais, etc.), como essas concepções se concretizam na escola? 
SG – Sem condições de tempo e espaço para dar uma resposta mais aprofundada, limito-me a dizer que a ideia de Filosofia como formação crítica não raramente leva a um esvaziamento da aula de Filosofia, ela se tornando um mero debate de opiniões. Há professores que levam para a aula um recorte de jornal, por exemplo, ou pedem que os alunos levem recortes de jornais ou revistas, para promover um debate sobre um determinado tema cotidiano. Isso pode ser muito interessante, mas esvazia a aula de um conteúdo propriamente filosófico... Por outro lado, uma aula de Filosofia centrada na História da Filosofia pode garantir um acesso ao conteúdo específico, isto é, as ideias e sistemas produzidos pelos filósofos, mas por sua vez pode se tornar desinteressante para os estudantes, como apenas mais um conjunto de informações a serem decoradas e esquecidas logo depois da prova...


JO – Como é possível evitar os problemas originados por essas concepções? 
SG – Como afirmei antes, penso que para ensinar é preciso colocar-se em uma determinada perspectiva da Filosofia, orientar-se no pensamento. Apenas assim podemos transitar pela diversidade e multiplicidade da Filosofia sem nos perdermos. Particularmente, encontro na perspectiva de Filosofia apresentada por Deleuze e Guattari em O que é a filosofia?, obra publicada em 1991, uma possibilidade interessante. Como professor de Filosofia, tenho procurado trabalhar a partir dessa ideia, de que a filosofia consiste em uma atividade de criação conceitual. E, ao pensar o ensino da Filosofia no nível médio, pareceu-me que ela poderia ser muito operativa.


JO – Em que consiste especificamente o ensino da Filosofia pensado a partir das concepções de Deleuze e Guattari? 
SG – Se tomamos então a Filosofia como uma atividade criativa, isso significa que ensinar essa disciplina do pensamento não pode ser apenas transmitir conhecimentos e informações. Se a filosofia é atividade de criação, é necessário convidar a fazer essa atividade, isto é, convidar a pensar filosoficamente. E se pensar filosoficamente significa pensar através de conceitos, então o ensino da Filosofia precisa ser, de algum modo, um acesso aos conceitos, uma apreensão dos conceitos produzidos pelos filósofos, mas também um convite à criação de conceitos próprios. Assim, essa noção de Filosofia parece nos proporcionar uma perspectiva do ensino desta disciplina que não seja uma mera transmissão de informações, por um lado, mas por outro, que não seja também uma atividade esvaziada do propriamente filosófico, resolvendo aquela questão que expus anteriormente: ou um “ensino ativo” esvaziado de filosofia ou um ensino cheio de filosofia, mas enciclopédico, esvaziado de atividade. Essa noção nos dá a possibilidade de um ensino da Filosofia que não separa o produto (conceito) do processo do filosofar. Só se aprendem conceitos fazendo o movimento de produzi-los. E só se produzem conceitos se aprendemos as diferentes formas que os filósofos inventaram para o fazer.


JO – Do ponto de vista prático, como concretizar essa concepção? 
SG – Tenho investido em duas metodologias distintas. A primeira, pensada para partir do problema e chegar ao conceito, organizo em quatro passos didáticos. Parte-se de uma sensibilização para um determinado tema, passa-se a uma problematização do tema, a uma investigação na história da filosofia em busca de como diferentes filósofos pensaram a questão e que conceitos criaram para, por fim, chegar a uma conceituação, que tanto pode ser refazer o caminho de produção conceitual feito por um determinado filósofo como um processo próprio de criação conceitual. Uma segunda metodologia, tenho denominado “método regressivo”, pois tratar-se-ia de partir do conceito para chegar ao problema. Como o problema filosófico nunca é claro em um texto de filosofia, a atividade seria a de estudar o texto, apreender o conceito ou conceitos criados pelo filósofo para, a partir deles, investigar qual teria sido o problema ou conjunto de problemas que levaram o filósofo a criá-los.


JO – Em sua opinião, seguindo essas metodologias, os professores do Ensino Médio conseguirão dar boas aulas de filosofia? 
SG – Em um ou noutro caso, trata-se de uma metodologia aberta, que não tem a intenção de oferecer ao professor um manual de como agir, uma definição absoluta dos rumos da aula, mas uma espécie de bússola, que aponta uma direção, mas não define estritamente o caminho. A aula precisa ser sempre uma criação do professor, que ele faz a partir de sua bagagem filosófica, de seus interesses, de seus problemas, de forma articulada com os interesses e problemas de cada turma de estudantes. Apenas assim o ensino de Filosofia pode ser um aprendizado significativo.

_________
Silvio Gallo é professor da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e desenvolve pesquisas sobre o ensino de Filosofia. Entre suas diversas obras, destacam-se: Subjetividade, Ideologia e Educação (Editora Alínea, 2009), Deleuze & a Educação (Editora Autêntica, 2008) e Pedagogia Libertária - anarquistas, anarquismos e educação (Editora Imaginário/ Editora da Universidade Federal do Amazonas, 2007).

Fonte: http://www.anpof.org.br/spip.php?article118.
Foto: http://www.clicrbs.com.br/pioneiro/rs/plantao/10,2922977,Pesquisador-da-Unicamp-defende-reinvencao-da-escola.html.html

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Repúdio ao 4%!!!

Abaixo-assinado

CARTA DE REPÚDIO AO ACORDO MPOG 04/2011 DE 26/08/2011

Para:Presidência da República,

MPOG, ANDES-SN e PROIFES

CARTA DE REPÚDIO AO ACORDO MPOG 04/2011 DE 26/08/2011


Pela primeira vez na história da República Brasileira, os professores precisam convencer não apenas os governantes dos seus valores e esclarecer suas importâncias, mas também às suas próprias Centrais Sindicais signatárias do Acordo MPOG 04/2011.

Independente de interesses pessoais ou bandeiras político-partidárias defendidas, os docentes que concordam com essa carta sinalizam que o País está permeando por uma oportunidade de revitalizar a Educação Nacional, contudo, isso passa, inexoravelmente, por maior valorização do profissional acadêmico.

Aceitar uma proposta de reposição de 4%, considerando a inflação do período em questão, e a futura equiparação salarial com os servidores do Ministério de Ciências e Tecnologia de forma verbal, traz à tona uma triste, seca e preocupante realidade: não estamos valorizando a Educação, tampouco fortalecendo. O futuro será conforme os cálculos previstos: Instituição Federal de Ensino NÃO será sinônimo de qualidade.

Mesmo com intenso sentimento de angústia, sentimo-nos fortes quando lembramos que a Educação é formada, executada e sobrevive exclusivamente pelos professores, e não por Centrais Sindicais ou semelhantes; lembrança essa que nos faz reverberar nossos anseios por diversos meios midiáticos com artifícios de paralisação de atividades letivas e explicações perenes aos discentes e comunidade sobre os fatos.

A data 26 de agosto de 2011 será esquecida da História da Educação, enquanto o dia 1º de setembro do mesmo ano será lembrado como o dia em que os professores fizeram uma paralisação Nacional em forma de repúdio ao Acordo 04/2011; a fim de fortalecer a Educação Nacional, sinalizando, ainda, que os professores podem formar opiniões de formas clara, rápida e objetiva; bem como efetivar perspectivas de indicativo de greve pelas bases, independente de interesses pessoais.

Os signatários


Que é isto, o valor?

A crítica do cartunista Quino sobre os valores da educação atual.



sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O que é isto, a ilusão?


Ilusión

Marisa Monte & Julieta Venegas

Uma vez eu tive uma ilusão
E não soube o que fazer
Não soube o que fazer
Com ela
Não soube o que fazer
E ela se foi
Porque eu a deixei
Por que eu a deixei?
Não sei
Eu só sei que ela se foi
Mi corazón desde entonces
La llora diario
No portão
Por ella
No supe que hacer
Y se me fue
Porque la dejé
¿Por que la dejé?
No sé
Sólo sé que se me fue
Sei que tudo o que eu queria
Deixei tudo o que eu queria
Porque não me deixei tentar
Vivê-la feliz
É a ilusão de que volte
O que me faça feliz
Faça viver
Por ella no supe que hacer
Y se me fue
Porque la dejé
¿Por que la dejé?
No sé
Sólo sé que se me fue
Sei que tudo o que eu queria
Deixei tudo o que eu queria
Porque não me deixei tentar
Vivê-la feliz
Sei que tudo o que eu queria
Deixei tudo o que eu queria
Porque no me dejo
Tratar de hacerla feliz
Porque la dejé
¿Por que la dejé?
No sé
Sólo sé que se me fue

(Para quem pensa que esgoelar é sinônimo de cantar, aqui o exemplo de uma música que nunca, nunca deveria terminar).

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Meus filhos que estão na Terra*

Wilson Correia

Eu acompanho vocês
...
Meus Filhos que estão na Terra e se encontram em Honduras: vejo-os, crianças miseráveis, disputando com os abutres as sobras do lixo recolhidas em aterros sanitários de suas cidades, tirando dessa imundície quaisquer coisas para alimento próprio ou para a venda a quem manifeste a disposição de mercadejar com o imprestável. Sou testemunha de que seus corpos estão raquíticos e que nesse esqueletismo seu espírito não pode vicejar.

Meus Filhos que estão na Terra e se encontram na Colômbia: percebo vocês pouco vividos nas garras da prostituição, igualando-se a milhões de crianças prostituídas por quem deveria proteger-lhes a dignidade ao redor do mundo. Ao contrário disso, milhões de vocês, a cada trezentos e sessenta e cinco dias contados, são traficados e vendidos como mercadorias de somenos. Conheço esse drama pelo qual passam e sei vocês ultrajados nas vísceras e no espírito.

Meus Filhos que estão na Terra e se encontram na Índia: vejo-os, pequeninos, quebrando pedras em troca de notas miseráveis que mal dão para o leite consumido esporadicamente. Vocês integram o número de crianças que soma quase duzentos e vinte milhões em todo o mundo, as quais têm que trabalhar de algum modo para não caírem mortas de inanição. Trabalham muito! Chegam a uma jornada de dezessete horas por dia e o fazem sob condições lastimáveis, desempenhando as mais perigosas atividades. Não ignoro a cruz existencial sob a qual estão pregados e sei os pregos da miséria a lhes rasgarem a mente e o coração.

Meus Filhos que estão na Terra e se encontram no Afeganistão: vocês vivem há não mais que meia dúzia de anos e já os vejo refugiados da guerra, metidos em trabalhos forçados nas fábricas de tijolos, os quais viram seguidamente para se tornarem secos sob o sol que eu quero igual para todas as criaturas, mas é causticante para vocês, levinhos, pisando esses tijolos de modo a não quebrá-los. Eu sei a dor a lhes torrar a alma e a sola dos pés.

Meus Filhos que estão na Terra e se encontram no Paquistão: eu os vejo disputando migalhas de carvão perdidas pelos carros da Cruz Vermelha ao longo das estradas. Trabalho não existe para seus adultos. A alimentação que têm é precaríssima. Suas necessidades básicas gritam roucamente em meus ouvidos e estão sempre a zero. Suas famílias inteiras definham diante de mim. Eu sei a fome a lhes animalizar e lhes queimar o estômago.

Meus Filhos que estão na Terra e se encontram nos Estados Unidos da América do Norte: assisto a vocês, filhos de pobres drogados, catando latinhas nas ruas, entregues a trabalhos destinados aos adultos. Vocês mancham o esplendor da maior riqueza nacional do planeta e eu sei o que lhes entorpece a alma, o coração e os passos frágeis por sobre os dias. Sua dimensão anímica se reduz a comandos instintivos de defesa ou fuga, e mais esse vexame eu tenho que testemunhar.

Meus Filhos que estão na Terra e se encontram no Brasil: país do vale tudo e onde tudo é possível; país da mentira, da política dos faz-de-conta, da lábia falaciosa, do levar vantagem em tudo, da maldade institucionalizada, da cegueira confessa, do não sei que simula e dissimula, do silêncio covarde, do acinte, da corrupção, do jeitinho para tudo e da falta de vergonha na cara... aí vocês crianças vivem premidas pela exploração sexual, movidas pela necessidade de obterem alguma renda, sem saírem da miséria, vocês têm nos próprios pais os seus negociadores. Vocês se vendem por míseros centavos e se entopem de cola e outros ópios para não testemunharem a própria degradação, mesmo antes de terem experimentado a vida. Nas ruas vocês são contados aos milhões, sem família, e tendo de praticar seguidos furtos para continuarem de pé. Vejo-os, crianças, aos bandos e ao relento nos espaços públicos, nos prédios abandonados, debaixo dos viadutos, nos terrenos baldios e nas encostas dos morros marginais de suas cidades. O que fazer com as fomes de vocês? Eu sei que seus corpos são o único recurso de que dispõem e sei esse sacrilégio a lhes marcar a pele e a lhes destroçar o mundo subjetivo e a identidade ainda em promessa.

Meus Filhos que estão na Terra, espalhados por todo o globo, santificadas sejam a vida e a existência de vocês.
Venha a mim o martírio cotidiano a que são submetidos, diuturnamente.
Seja feita a vontade daqueles que integram o um por cento de todos os meus filhos humanos no mundo que detêm nas mãos a metade de toda a riqueza produzida pela humanidade, na forma de bens que deveriam ser empregados para evitar a via-crúcis atestada acima, mas cuja negação e falta criam-lhes o pior dos infernos possíveis. E dele não podem escapar.

O meu pão de cada dia me dêem hoje, na forma de entrega, pedidos, orações, gritos, gemidos, desamparo, abandono, miséria, pobreza, fome, maus-tratos, tortura, sevícia, exploração, lamentos, lamúrias, doenças, ignorâncias verbais e de atos, sentimentos e pensamentos, violência, soluços e lágrimas, pois é dessas coisas que me faço, com base nisso existo, perduro no tempo e sou.

Perdoem a ofensa que lhes perpetro com meu silêncio, meus braços cruzados, minha ausência, minha omissão e minha indiferença, a tudo assistindo e em nada intervindo, assim como perdôo os dominantes que lhes tratam como gado vendaval, animais, coisas e nulidades cruas.
...
Não me façam cair na tentação de vocês que é a de me esquecer, porque se isso se der eu evaporarei, e isso será o meu mal, esse que já conhecem na própria carne e no próprio sangue, o igual, o mesmo e sempre derramado continuamente por mim desde aquele que um dia foi pregado vivo no madeiro.
...
Amém.

______
*Crônica publicada no espaço "Veneno Crônico" do sítio "A Garganta da Serpente", em 22/12/2006.