segunda-feira, 11 de julho de 2011

São João, Filosofia, Cultura e Educação


Clique na imagem acima para ampliar

Trabalho realizado no componente curricular Filosofia da Educação, primeiro semestre de 2011, no CFP da UFRB.

Acesse o Trabalho

domingo, 10 de julho de 2011

Nosso desafio

Wilson Correia

Leio na mídia que o psicanalista Contardo Calligaris e a também psicanalista Anna Verônica Mautner fizeram referência à vida grupal na FLIP – Festa Literária de Paraty.
O primeiro disse: “Eu fui membro do Partido Comunista, mas hoje seria incapaz. Quando desistimos da nossa singularidade para descansar no comportamento de grupo, aí está a origem do mal. O grupo, para mim, é o mal".
Penso ser extremamente complicada a atribuição dessa identidade ao mal, 100% depositado no grupo. Não podemos esquecer que só o veneno é 100%. E veneno significa morte.
Depois, tem o seguinte: quem disse que para se viver e pertencer a algum grupo teríamos que desistir “da nossa singularidade”? Não seria na dialética que medeia as relações “eu-tu”, “eu-nós”, “nós-nós” que se situariam as condições para a elaboração antropossocial de estilos existenciais?
A segunda afirmou: "Adoro ser transgressora, se não pertencer, como vou transgredir?"
De fato, quem pode o maior, pode também o menor. Aquele que participa, direta ou indiretamente, da elaboração de regras para a vida grupal torna-se criador da própria normatividade e, como tal, pode transgredi-la. Aliás, sem condições reais de transgressão a vida seria um verdadeiro inferno.
Mas a vida grupal parece não ser viável quando sua composição é preformatada, predefinida e predeterminada, como parece sugerir o “Discurso da servidão voluntária”, de Etienne de La Boétie, em que o “UM” condiciona a vida da “carneirada”. Um modelo societário em que a hegemonia do singular depende da escravidão de outrem é uma excrescência difícil de suportar.
Nessa perspectiva, é oportuno lembrar que o “super-homem” nietzscheano só seria possível se, lado a lado com ele, também concebêssemos as nulidades pigméias, os minimalismos humanos que legitimariam o humano titã que Nietzsche visualizou. Isso faria algum sentido?
Talvez nessa linha possa ser considerada a “ditadura do proletariado” proposta por Karl Marx e Friedrich Engels, em nome do socialismo, modo de produção material da vida em que a máxima seria: “De cada um segundo suas forças, a cada um conforme sua produção”; o qual, aliás, haveria de evoluir, deterministicamente, para o modelo societário fundado no comunismo, no qual a lei econômica máxima seria: “De cada um segundo suas forças, a cada um conforme suas necessidades”. No entanto, um sistema econômico e social que prioriza a vontade de justiça aniquilando a liberdade não passa de um absurdo.
Idealismos à parte, de direita ou de esquerda, liberais ou socialistas, o que uns e outros parecem não enxergar é que a vida humana se estende, repousa, reside e se dinamiza naquela dialética entre o particular (indivíduo) e o geral (grupo), entre o singular (pessoa) e o universal (humanidade, sociedade).
Por ser social e político, o humano é aquele que se encontra no berço da relação e do vínculo, razão pela qual a pertença é condição de possibilidade para que ele possa construir um estilo existencial coerente com a sua singularidade (liberdade), sem o que o outro não faz o menor sentido (justiça).
Não é sem motivos que, para nascer, cada ser humano necessita, no mínimo, de dois outros seus iguais. Do nascer ao morrer, o entrelaçamento do “meu” com o “teu”, do “eu” com o “nós” torna-se uma constante. Na predominância totalitária de um desses pólos é que reside o pior dos mundos possíveis.
Individualistas puros aniquilam o bem comum, a coisa pública, o “nosso”, que não tem um dono individual por ser de todos nós. Coletivistas puros matam o bem particular, a coisa pessoal, o “meu”, que não pode ser de todos porque condição indispensável a que a vida possa prosseguir.
Talvez seja oportuno lembrar Aristóteles: “A virtude está no meio”. No meio dialético que, não sem tensões e contradições, abre caminho à existência mediante a relação diuturna entre o pessoal e o social. Entender e praticar essa dialética aberta, que une justiça e liberdade, parece ser o único desafio que vale a pena considerar.

Fonte: RL

Ideias para o brasil virar Brasil

Dez sugestões para fazer deste um país melhor para nós e os nossos filhos


Diminuir a desigualdade social. Ainda somos um dos países de pior distribuição de renda no planeta, em poucos lugares há tanta diferença entre ricos e pobres. A miséria num país tão rico, os sem-teto e os sem-terra, são uma vergonha, um atestado de incompetência da sociedade brasileira e de seus muitos governos. Se não por questões humanitárias, que já deveriam ser suficientes, a sociedade brasileira poderia apoiar políticas de distribuição de renda e erradicação da miséria pensando ao menos no bem-estar de seus filhos, já que os índices de violência estão diretamente relacionados com os indicadores sociais.

Aumentar o salário dos professores. O Brasil precisa melhorar muito a qualidade do ensino, especialmente do ensino público. Acredito que a maneira mais rápida e eficiente de fazer isso é aumentar muito o salário dos professores. Internet nas escolas, boas bibliotecas e bons prédios são importantes, mas o que mais determina a boa qualidade do ensino são os bons professores, que só existirão se profissionais competentes e preparados pensarem que pode ser uma boa ideia ensinar.

Reduzir os índices de violência. Vivemos num país onde os assassinatos passam de 40 mil por ano, número que supera qualquer guerra em curso no planeta. Para quem já tem emprego, o que comer e onde morar, o pior do Brasil é a violência, o medo de sair na rua, a insônia pensando se os filhos vão chegar bem em casa. Os assassinados e os assassinos são, em sua imensa maioria, pobres e jovens, quase adultos abandonados por suas famílias e pelo Estado, sem educação, profissão ou esperança de um futuro melhor do que lhes possa proporcionar uma arma. Como cantou Sérgio Sampaio, ‘um marginal que já não pode mais fugir, vai reagir, menino é bom ficar de olho aí!’

Fazer política, acreditar na política. Cresce, especialmente entre os jovens, a ideia inteiramente falsa de que todos os políticos são picaretas, que política não serve para nada e que todos são iguais. Não são. É no debate político civilizado que surgem as ideias que viram ações. Os políticos são, em sua imensa maioria, cidadãos honestos que trabalham muito e se dedicam, às vezes recebendo baixos salários, a uma tarefa fundamental na democracia. A ideia, falsa e amplamente disseminada, de que a política é um emaranhado de malfeitorias é um desastre, atraindo para a vida pública um número crescente de aproveitadores e afugentando pessoas decentes que gostariam de trabalhar pelo bem comum.

De uma oposição melhor. Que apresente alguma ideia, boa ou ruim que seja. Ideias ruins também podem apontar caminhos, ao negá-las afirmamos algo. O problema é a total falta de ideias, substituídas por um moralismo oportunista que joga para a platéia e segue pesquisas de opinião o tempo todo, a ponto de o candidato de oposição declarar, sem qualquer ironia, que o presidente – que há pouco era demonizado, chamado de corrupto, ladrão e assassino – “está acima do bem e do mal”. A impressão é que os partidos de oposição terceirizaram suas ideias, esperam para ler nos jornais o que devem dizer aos jornais. Sem uma oposição consistente, que proponha opções ou apresente ao menos uma ideia, qualquer governo se acomoda, se apequena.

Respeitar a diversidade religiosa, mas coibir a exploração da fé. É indecente que mistificadores enriqueçam à custa da fé e da miséria alheia. A intimidação de fiéis para que façam doações, frequentemente denunciada com vídeos assustadores, deveria ser um simples caso de polícia. O fato de as igrejas não pagarem impostos é um convite à maracutaia. A propriedade disfarçada de empresas de comunicação – a Constituição Brasileira proíbe que igrejas sejam proprietárias de emissoras comerciais – é uma das muitas hipocrisias nacionais, como a conivência com o jogo ilegal e o tráfico de drogas: todos sabem como e onde se dão, pouco ou nada se faz para evitá-los.

Mais cultura. Para começar, melhorando a qualidade da educação (ver “salário dos professores”) e aumentando muito o investimento na produção e difusão cultural e também na preservação do patrimônio histórico. A indústria cultural, além de “limpa”, não poluente e autossustentável, emprega profissionais de todas as áreas, com qualificação e salários, em média, mais altos que de atividades tradicionais, como a agricultura e a indústria. A cultura está diretamente relacionada com outros setores produtivos, comunicação, turismo e serviços. A riqueza cultural brasileira é imensa e o seu público consumidor, especialmente o público interno, tem grande potencial de crescimento. Uma sociedade mais escolarizada, mais bem informada e com poder aquisitivo crescente, vai consumir mais livros, mais filmes, discos, peças, vai frequentar mais museus e fazer mais turismo. A longo prazo, a indústria cultural tem mais futuro, por exemplo, que a atividade de fazer buracos e mandar minério, de navio, para a China.

Internet banda larga boa e barata para todos. A comunicação rápida e o acesso à informação são fundamentais para o desenvolvimento e para o aperfeiçoamento da democracia. O serviço de internet no Brasil é dos mais caros do mundo e alcança apenas parte do País. O serviço de internet nas grandes cidades deveria ser – e será, resta ver quando – gratuito, como a televisão aberta e o rádio.

Cuidar melhor do seu patrimônio natural. Energia e mineração são fundamentais, mas as usinas, de qualquer tipo, sempre causam algum impacto ao meio ambiente e o petróleo e outros minérios são recursos não renováveis. O Brasil precisa aprofundar, democratizar, o debate racional e consequente sobre crescimento sustentável. Não se trata (só) de preservar o mico-leão ou o boto-cor-de-rosa, trata-se de saber que espécie de futuro queremos para os nossos filhos e netos.

Mais funcionários públicos qualificados e bem remunerados. Uma lenda amplamente difundida é a de que há funcionários públicos demais. Alguém acha que há médicos demais nos postos de saúde? Há policiais demais nas ruas? Há professores demais nas escolas? Talvez haja muitos fiscais nas reservas ecológicas? O Brasil precisa acreditar na ideia de que, com o aperfeiçoamento de sua jovem democracia, saberá descobrir, por si mesmo, do que precisa. O Brasil precisa aprender a não dar tanta atenção a criaturas que se julgam iluminadas a ponto de saber do que o Brasil precisa. O brasileiro informar-se tão bem a ponto de ficar em dúvida e decidir pensando por sua própria cabeça. O Brasil precisa acreditar que a maioria saberá escolher o que é melhor para o País e que, se achar que as coisas estão indo mal, pode fazer outra escolha em alguns anos. Chama-se democracia. Ninguém teve uma ideia melhor.

O Brasil precisa ler bons livros. É assustador o domínio da autoajuda, emocional e financeira, nas prateleiras das livrarias. Nossos excelentes romancistas, poetas, pesquisadores, jornalistas, estão soterrados por livros de espertos que prometem ensinar o leitor pobre de espírito a ser feliz em cinco dias e se tornar milionário em um ano. Espero que essa espécie de livro migre rapidamente para as versões digitais, evitando a continuada transformação de árvores em bobagens.

O Brasil precisa ler Guimarães Rosa: ‘Olhe: o que deveria de haver, era de se reunirem-se os sábios, políticos, constituições gradas, fecharem no definitivo a noção – proclamar por uma vez, artes assembléias, que não tem diabo nenhum, não existe, não pode. Valor de lei! Só assim davam tranquilidade à boa gente. Por que o governo não cuida? Ah, eu sei que não é possível. Não me assente o senhor por beócio. Uma coisa é pôr ideias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas, de carne e sangue, de mil e tantas misérias... Tanta gente – dá susto se saber – e nenhum se sossega: todos nascendo, crescendo, se casando, querendo colocação de emprego, comida, saúde, riqueza, ser importante, querendo chuva e negócios bons...’ (Grande Sertão: Veredas)
Perguntei para minha filha e para minha sobrinha, as duas com 9 anos, do que o Brasil precisa. Antes ‘do mi de um minuto’, elas responderam: ‘Casas para os moradores de rua e preservar a natureza’. As crianças sabem de tudo.”

Jorge Furtado
Márcia Luzia Cardoso Neves
Rede de Educação Ambiental da Bahia

sábado, 9 de julho de 2011

Professora Amanda Gurgel recusa prêmio

 

Por conta desse pronunciamento aí de cima, feito em uma audiência pública com deputados e outras autoridades, a professora Amanda Gurgel, do Rio Grande do Norte, recebeu o prêmio “Brasileiros de Valor 2011″ do Pensamento Nacional de Bases Empresariais (PNBE). Contudo, ela o recusou, como explica na carta abaixo.

 

"Natal, 02 de julho de 2011

Prezado júri do 19º Prêmio PNBE,

Recebi comunicado notificando que este júri decidiu conferir-me o prêmio de 2011 na categoria Educador de Valor, 'pela relevante posição a favor da dignidade humana e o amor a educação'. A premiação é importante reconhecimento do movimento reivindicativo dos professores, de seu papel central no processo educativo e na vida de nosso país. A dramática situação na qual se encontra hoje a escola brasileira tem acarretado uma inédita desvalorização do trabalho docente. Os salários aviltantes, as péssimas condições de trabalho, as absurdas exigências por parte das secretarias e do Ministério da Educação fazem com que seja cada vez maior o número de professores talentosos que após um curto e angustiante período de exercício da docência exonera-se em busca de melhores condições de vida e trabalho.

Embora exista desde 1994 esta é a primeira vez que esse prêmio é destinado a uma professora comprometida com o movimento reivindicativo de sua categoria. Evidenciando suas prioridades, esse mesmo prêmio foi antes de mim destinado à Fundação Bradesco, à Fundação Victor Civita (editora Abril), ao Canal Futura (mantido pela Rede Globo) e a empresários da educação. Em categorias diferentes também foram agraciadas com ele corporações como Banco Itaú, Embraer, Natura Cosméticos, McDonald’s, Brasil Telecon e Casas Bahia, bem como a políticos tradicionais como Fernando Henrique Cardoso, Pedro Simon, Gabriel Chalita e Marina Silva.

A minha luta é muito diferente dessas instituições, empresas e personalidades. Minha luta é igual a de milhares de professores da rede pública. É um combate pelo ensino público, gratuito e de qualidade, pela valorização do trabalho docente e para que 10% do Produto Interno Bruto seja destinado imediatamente para a educação. Os pressupostos dessa luta são diametralmente diferentes daqueles que norteiam o PNBE. Entidade empresarial fundada no final da década de 1980, esta manteve sempre seu compromisso com a economia de mercado. Assim como o movimento dos professores, sou contrária à mercantilização do ensino e ao modelo empreendedorista defendido pelo PNBE. A educação não é uma mercadoria, mas um direito inalienável de todo ser humano. Ela não é uma atividade que possa ser gerenciada por meio de um modelo empresarial, mas um bem público que deve ser administrado de modo eficiente e sem perder de vista sua finalidade.

Oponho-me à privatização da educação, às parcerias empresa-escola e às chamadas “organizações da sociedade civil de interesse público” (Oscips), utilizadas para desobrigar o Estado de seu dever para com o ensino público. Defendo que 10% do PIB seja destinado exclusivamente para instituições educacionais estatais e gratuitas. Não quero que nenhum centavo seja dirigido para organizações que se autodenominam amigas ou parceiras da escola, mas que encaram estas apenas como uma oportunidade de marketing ou, simplesmente, de negócios e desoneração fiscal.

Por essa razão, não posso aceitar esse Prêmio. Aceitá-lo significaria renunciar a tudo por que tenho lutado desde 2001, quando ingressei em uma Universidade pública, que era gradativamente privatizada, muito embora somente dez anos depois, por força da internet, a minha voz tenha sido ouvida, ecoando a voz de milhões de trabalhadores e estudantes do Brasil inteiro que hoje compartilham comigo suas angústias históricas. Prefiro, então, recusá-lo e ficar com meus ideais, ao lado de meus companheiros e longe dos empresários da educação.

Saudações,
Professora Amanda Gurgel"

Fonte: http://www.conversaafiada.com.br/

A filosofia e seu ensino

ENTREVISTA

Concedida a Rony Henrique de Souza, para fins de elaboração de Trabalho de Conclusão de Curso de Especialização em Educação e Interdisciplinaridades do Centro de Formação de Professores da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, em novembro de 2010, pelo Prof. Dr. Wilson Correia.

I – História de vida - Formação profissional, humana e acadêmica
Nasci em Campos Gerais, MG. Sou filho de José Martins Corrêa e de Maria dos Anjos de Jesus, o penúltimo dos nove irmãos. Divorciado, sou pai de Mayla Correia, de 14 anos de idade, residente em Uberaba, MG.
Meus estudos em nível médio, então 2° Grau, foram concluídos em Goiânia, em 1988. De1989 a 1992, cursei Licenciatura em Filosofia na Universidade Católica de Goiás, hoje PUC Goiás. Entre 1994 e 1996, fiz Especialização em Psicopedagogia, na Universidade Federal de Goiás. Freqüentei o Mestrado em Educação na Universidade Federal de Uberlândia, MG, entre 2000 e 2002. Em 2003, dei início aos estudos de doutoramento na Universidade Estadual de Campinas, SP. Recebi o título de Doutor em Educação em junho 2008.
Minha inserção na prática da pesquisa teve início na graduação, quando planejei e executei o TCC Utopia de Morus: Construção Onírica ou Contestação do Real?, cuja indagação problematizou: o fim de alguns regimes socialistas liquidou a capacidade humana de preconizar e lutar por outro mundo possível? Utopia é sonho? O que é mesmo a utopia?
Na Especialização, pesquisei o tema: Fracasso Escolar: Negação da Cidadania? Nos anos 1990, quando a população brasileira contava cerca de 160 milhões de pessoas, os analfabetos brasileiros somavam 30 milhões (16 milhões deles, totais; 14 milhões, funcionais). Por isso a pesquisa problematizou: o fracasso escolar (repetência e evasão) configura, ou não, uma forma de negação da cidadania? Como a filosofia e a educação podem lidar com essa problemática?
No Mestrado minha investigação foi nomeada de Ethos, Educação e Currículo: a Ética como Saber Escolar, e se deu no âmbito do Grupo de Pesquisa em Saberes e Práticas Escolares, na linha homônima da FE/UFU. Cumpria-me a mim a busca de um sentido para o trabalho com filosofia na sala de aula e empreender uma análise sobre as implicações que a proposta representa para a educação básica brasileira no período pós-reformas educacionais dos anos 1990.
Esse trabalho me levou ao tema Ensino de Filosofia e o Problema do Endereçamento Curricular da Ética nos PCN: Controle ou Democracia?, que ganhou a forma de tese de doutorado, desenvolvida no Grupo Paidéia de Estudos e Pesquisas em Filosofia da Educação, Linha de Pesquisa em Ética, Política e Educação da FE/UNICAMP, na qual, entre outras coisas, pude compreender que a filosofia preconizada pelas reformas educacionais havidas no Brasil nos anos 1990 endereçava-se ao cidadão e ao trabalhador “globalizado”, cujo percurso curricular pareceu-me configurado no neotecnoescolanovismo da sociedade liberal.
Em minha prática de ensino, indago: a filosofia contribui para a luta a favor de uma sociedade mais justa e de estilos existenciais mais humanos, solidários, autênticos, livres? Com essa inquietação, venho ministrando os componentes curriculares que dão ênfase à filosofia da educaçãor.
Na extensão, desenvolvo o Projeto Debate sobre ética e política, com encontros entre universitários e representantes da sociedade, visando a cumprir a função social da IES pública e a responsabilidade social do professor (ainda não implementado aqui no CFP). E, em decorrência dessa trajetória, desenvolvo pesquisas sobre a formação docente para o ensino de filosofia.

II – História do Câmpus e do Curso expressa em palavras


A/ CFP em Amargosa
Pelo que me consta, Amargosa não se inseria, inicialmente, como candidata a ter um câmpus da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Porém, a intensa mobilização de forças políticas e do povo fez com que o Centro de Formação de Professores (CFP) fosse instalado nesta cidade, na condição de câmpus universitário da UFRB. Seu objetivo maior é o de oferecer cursos de licenciatura, portanto, voltado precipuamente para a formação de professores de todas as áreas que perfazem a educação básica brasileira.


B/ Curso de Filosofia dentro do CFP
Desde 2006, a filosofia, ao lado de sociologia, passou a ser uma disciplina obrigatória do Ensino Médio brasileiro. Ora, é público e notório que, pelo fato de a filosofia nunca ter desfrutado uma presença curricular estável em nosso sistema de ensino, temos imensa necessidade de professores de filosofia bem formados, visando à atuação na educação básica, e não apenas no ensino médio. Nesse sentido, o curso de filosofia do CFP, cujo escopo é o de formar para o magistério, vem ocupar um lugar importante e pode oferecer uma grande contribuição à formação dos brasileiros que cursam nosso sistema de ensino.

- Diga um pouco sobre como você observa este curso dentro do CFP: Qual a sua importância? Que projetos já foram vislumbrados ou estão sendo a partir dele?
O ensino superior é feito com base no tripé que compreende ensino, pesquisa e extensão. É dentro desse contexto que os professores conduzem seus projetos, os quais aparecem devidamente registrados no Currículo Lattes de cada docente.
Esses projetos concorrem para robustecer a importância do curso de licenciatura em filosofia aqui no CFP, o qual cai sob minha observação como um aglutinador de esforços de diversos professores, os quais, nesse momento de interiorização da educação superior brasileira e de luta por garantias de democratização do acesso e permanência na universidade, podem cumprir o papel de, não apenas formar para a docência, mas, também, de contribuir para o processo de formação da identidade do CFP. Ademais, o curso pode oferecer espaços de debates de ideias sobre o Brasil, sua história e sua marca principal.

- Como nasceu o desejo de implantar o curso de Filosofia no Câmpus de Amargosa? Por que a filosofia?
Se um povo que não registra e não cultiva a própria memória está destinado ao fracasso e até ao aniquilamento, o que dizer de um povo que não pensa? Ora, a filosofia, dedicada ao cultivo da razão e do exercício do pensamento, justifica-se em um Centro de Formação de Professores por ser esse curso cuja especificidade está voltada para o cultivo dos valores da racionalidade, imprescindível à boa formação intelectual de nossos professores, e, por consequência, de nossas comunidades, mediante as experiências de pensamento que pode ensejar. Creio que, de forma genérica, esses entendimentos tenham motivado a criação do curso de licenciatura em filosofia aqui no CFP da UFRB.

- Qual a sua visão sobre o PPC do curso de Filosofia?
O atual PPC do curso de licenciatura em filosofia do CFP está passando por uma revisão. Os professores tem somado esforços para fazer com que esse documento seja aperfeiçoado.
De minha parte, tenho observado que os cursos de filosofia no Brasil se fundamentam com base em um padrão que inclui:
1) enquadramento de estudos e pesquisas, de ensino e extensão, aprendizagem e prática, no contexto histórico da tradição filosófica consagrada, tomando-se nesse viés os problemas objetivados nessa tradição;
2) predomínio de uma metodologia de tratamento filosófico da problemática tradicional centrada no rigor, na clareza e na precisão cartesianas oferecida pela pesquisas bibliográficas fundadas na interpretação, no comentário e na reprodução dos grandes autores da filosofia, razão pela qual os cursos fundam-se em propostas profundamente argumentativas, nas quais os conceitos, tecnicamente elaborados, servem de ponte de chegada e aplicação, e não de ponto de partida e criação;
3) prevalência do emprego cuidadoso do pensamento alheio, com evidenciação de apoio textual de citações e referências apropriadamente evocadas no desenvolvimento da abordagem dos problemas tradicionais segundo critérios interpretativos e comentadores, muitas vezes relegando ao segundo plano o trabalho de produção autoral de um pensamento que é próprio e inovador.
No meu entendimento, um curso de filosofia não precisaria necessariamente se fundamentar nos critérios anteriormente assinalados. Ele pode ter um PPC que enfatize:
1) componentes curriculares que propiciassem boa formação para o pensar, visando ao fortalecimento da postura intelectual, de modo que o estudante alcançasse o estágio daquele que pensa por conta própria;
2) componentes e experiências curriculares de formação que assumissem, também, as problemáticas atuais que afligem a humanidade, com metodologia que desse espaço também para a intuição intelectual, para a autoria de pensamento e para a criação de conteúdos filosóficos;
3) componentes curriculares que, então, oferecesse acesso à erudição, uma vez que, já tendo se exercitado na tarefa de pensar por conta própria, o estudante pudesse lidar com os conteúdos já consagrados sabendo o que fazer com eles, preferentemente utilizando-os como suporte para seus trabalhos atualizados e autorais.

- Como você vê o curso ao pensar nos objetivos da LDB em formar para a cidadania?
Formar para a cidadania é a velha cantilena dos liberais, só equiparada a defesa que eles fazem da educação voltada para formar para o trabalho, numa postura neotecnoescolanovista cujas raízes se estendem a Descartes, passa por Rousseau e Kant, chega a Dewey e a Piaget. Ora, o conceito de cidadania aí evocado traz à tona a questão sobre cumprimento de deveres e desfrute de direitos, e não uma definição mais arrojada de cidadania, a qual incluiria o entendimento de que condição de vida cidadã identifica-se com a participação ativa na produção e apropriação de bens materiais, sociais e culturais. Todos sabemos que o conceito de cidadania que emana da LDBEN e do discurso da educação voltada para ela não se desprende do conceito liberal e burguês de cidadania, ancorado no entendimento formal de liberdade e igualdade que se faz presente na ideologia que explica o sistema capitalista.
Ora, creio que um curso de licenciatura em filosofia pode um pouco mais. Pode, por exemplo, formar o ser humano para ele mesmo, dando-lhe condições de escolher que cidadania quer vivenciar. Pode, inclusive, formar para a crítica do modelo de sociedade no qual estamos inseridos, e do estilo existencial de homem e mulher que estamos educando para sustentar aquela sociedade. Creio que uma educação ética digna desse qualificativo não instrumentaliza o humano, mas o vê como um fim em si mesmo, aliás, como Kant também propôs. Daí a ênfase em um curso que ensinasse a pensar por conta própria, a criar e a produção autoral, respeitando-se a dignidade humana que se delineia com base na racionalidade, na potencialidade do raciocínio e na liberdade de escolha indispensável a todo homem e a toda mulher.

- O que você entende por interdisciplinaridades?
Interdisciplinaridade não rompe a lógica da disciplinaridade. A disciplinaridade é estabelecida com base na divisão e fragmentação cartesiana dos conhecimentos, resultados de objetos e metodologias também seccionados. Então, a interdisciplinaridade, pelo que tenho visto em nosso meio acadêmico, tem sido esse esforço epistêmico, didático, pedagógico e de prática docente voltado para o afrouxamento das fronteiras das disciplinas. Esse afrouxamento parece estar sendo promovido visando a que o grau de interatividade e diálogo entre os diversos campos do conhecimento, suas áreas e disciplinas seja ampliado. O objetivo é promover maior integração epistêmicas e pedagógica entre as diversas disciplinas que compõem a formação acadêmica, visando a que os reducionismos, os “guetos epistêmicos” e seus territórios se abram para um enriquecimento pela troca e pela abordagem comum dos diversos objetos que compõem os campos das artes, das ciências e das filosofia. Logo, interdisciplinaridade é desafio e requer mudanças humanas, teóricas, metodológicas, políticas e técnicas de todos quantos fazem o ensino, a pesquisa e extensão em nossos cursos de terceiro grau.

- Como você vê o curso de Filosofia dentro de uma perspectiva interdisciplinar?
A filosofia é, por natureza, interdisciplinar, no sentido de ela romper as próprias fronteiras para ir buscar nos outros campos dos saberes humanos aqueles materiais de que ela precisa para fazer a abordagem epistêmico-filosófica da realidade. Não consigo ver a filosofia numa outra perspectiva, razão pela qual um curso de filosofia pode e deve se abrir às outras áreas das informações, conhecimentos e saberes que o homem e a mulher produzem. Aberta ao universo epistêmico, a filosofia faz jus à sua natureza interdisciplinar e potencializa a articulação de saberes que abordem o local, sem se esquecer o universal, e vice-versa, mostrando-nos como é possível não se reduzir à altura do próprio umbigo.

O que é isto, o conceito?

Wilson Correia

O conceito é uma opinião e se realiza na verbalização do entendimento cognitivo sobre coisas, seres, fenômenos e relações.
Trata-se de uma ideia ou forma de ver o mundo. É, ainda, um juízo, por meio do qual afirmamos ou negamos algo sobre algo, ou alguém.
Conceito é engenho, criação. Envolve tese, antítese e síntese. Por isso ele está lá, no ‘insight’ (iluminação) súbito do pós-charada, pós-chiste ou pós-piada.
O conceito é o olho e os óculos. Multiplicidades condensadas. Plurais, abertos, desprovidos de quaisquer absolutismos, tiranias ou totalitarismos.
O conceito é relação. Implica o reconhecimento e a atribuição de legitimidade ao outro. É a tolerância no limite daquilo que é racionalmente suportável, mas necessária.
Por derivar de um ato criador, o conceito não é ponto de partida. O ponto de partida é aquilo que é conhecido, velho, já realizado, já cristalizado.
O conceito quebra todas as cascas e couraças, todas as personas e todas as armaduras, deixando o seu criador plenamente livre para partir rumo ao sempre novo do olhar.
Conceito, então, é ponto de chegada. Uma chegada em aberto, daquelas que só prenunciam outros pontos de chegada.
Conceituar é um ‘continuum’ que só encontra seu próprio limite dentro das tábuas de um caixão de defunto ou de uma indumentária fúnebre.
O conceito é o condutor dos saberes. Dos saberes que são produzidos para se saber a enormidade do tanto que se ignora.
Na verdade, então, o conceito não é nem ponto de partida nem ponto de chegada, mas o “durante” que se vive entre um e outro.
Por isso o indefinido, o incerto e o imprevisível estão aí, aos nossos olhos, embalados por nossas infindas tentativas de conceituar.
Em uma palavra, conceito é vida!




__________________
Imagens: googleimagens e Magritte.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

A ditadura militar brasileira: imenso "cale-se!"



Cálice

Chico Buarque

Composição: Chico Buarque e Gilberto Gil
 
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue
Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor e engolir a labuta?
Mesmo calada a boca resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa?
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue
Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada, prá a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue
De muito gorda a porca já não anda (Cálice!)
De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, Pai, abrir a porta (Cálice!)
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade?
Mesmo calado o peito resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue
Talvez o mundo não seja pequeno (Cale-se!)
Nem seja a vida um fato consumado (Cale-se!)
Quero inventar o meu próprio pecado (Cale-se!)
Quero morrer do meu próprio veneno (Pai! Cale-se!)
Quero perder de vez tua cabeça! (Cale-se!)
Minha cabeça perder teu juízo. (Cale-se!)
Quero cheirar fumaça de óleo diesel (Cale-se!)
Me embriagar até que alguém me esqueça (Cale-se!).