sexta-feira, 5 de agosto de 2011

De onde vem o dinheiro?

 

“Como o sistema financeiro mundial criou a dívida

Ao contrário da crença popular, o dinheiro que circula pelo mundo não é criado pelos governos, mas sim pela banca privada em forma de empréstimos, que são a origem da dívida. Este sistema privado de criação de dinheiro tornou-se tão poderoso nos últimos dois séculos que passou a dominar os governos em nível mundial. No entanto, este sistema contém em si próprio a semente da sua destruição e é o que estamos experimentando na crise atual. Dados os seus níveis colossais, trata-se de uma dívida impagável.

O colapso econômico é iminente. Os países mais industrializados do mundo enfrentam uma grande crise da dívida provocada pela crise do crédito de 2008, após a crise das hipotecas imobiliárias e a queda do Lehman Brothers. Estas crises originadas por um colapso do crédito costumam ser muito mais prolongadas e profundas que as crises desencadeadas por um surto inflacionário. Grande parte do mundo enfrenta este tsunami da dívida à beira da bancarrota, como acontece com Grécia, Irlanda e Portugal. No entanto, podemos falar de bancarrota quando estes países possuem enormes riquezas em capital humano e recursos produtivos? De acordo com o atual sistema financeiro, sim. E é por isso que os serviços públicos estão sendo cortados e os bens públicos privatizados.

Ao contrário da crença popular, o dinheiro que circula pelo mundo não é criado pelos governos, mas sim pela banca privada em forma de empréstimos, que são a origem da dívida. Este sistema privado de criação de dinheiro tornou-se tão poderoso nos últimos dois séculos que passou a dominar os governos em nível mundial. No entanto, este sistema contém em si próprio a semente da sua destruição e é o que estamos a experimentar na crise atual: a destruição do sistema financeiro que temos conhecido, dado que não tem nenhum tipo de saída pelas vias convencionais. Dados os seus níveis colossais, trata-se de uma dívida impagável.

Para compreender isto, há que referir que o sistema financeiro tem funcionado sempre como um gigantesco esquema ponzi, onde os novos devedores permitem manter a velocidade do crédito. Se se produz um colapso dos novos devedores, o sistema fica sem a opção de conceder mais crédito e, à medida que esta opção se cristaliza com o tempo, o sistema inteiro entra em colapso e requer injeções de liquidez na esperança de que os fluxos voltem à normalidade. A habituação do dna coletivo à dependência do crédito produziu este retorno à normalidade durante várias décadas. Mas até o dna acusa fadiga e nesta co-dependência ao crédito recorda os sintomas da escravatura: é a escravatura da dívida.

A criação de dinheiro através do sistema de reserva fracionada
Os bancos centrais são os responsáveis pela oferta monetária primária, ou base monetária, conhecida também como dinheiro de alto poder expansivo. Este dinheiro de alto poder expansivo é o que chega aos bancos privados, que são quem o reproduz pela via do crédito. A reprodução do dinheiro original depende da taxa de encaixe, ou reservas mínimas requeridas, que produz o efeito inverso: quanto menor é a exigência de reservas, maior é a quantidade de dinheiro que a banca privada cria. Isto conhece-se como o multiplicador monetário e a sua fórmula, muito simples, é m=1/r, onde m é o multiplicador monetário e r o nível de reservas exigidas em percentagem.

Deste modo, perante um nível de reservas de 50% (r=0,5 na equação), o multiplicador monetário é 2, como era nas origens da banca inglesa no ano de 1630. Se o nível de reservas é de 20%, o multiplicador monetário é 5 e se as reservas exigidas são de 10%, o multiplicador é 10 (m=1/0,1), o que indica que está a multiplicar-se dez vezes a quantidade de dinheiro real oferecida pelo banco central.

Grande parte da desregulamentação financeira promovida desde os anos 80 consistiu em dar aos bancos a maior das liberdades para o montante das suas reservas. Deste modo, a clássica norma de reservas em torno de 10% ou 20% foi reduzida a níveis de 1%, e mesmo inferiores, como aconteceu com Citigroup, Goldman Sach. JP Morgan e Bank of America, que, nos momentos mais sérios, afirmavam ter uma taxa de encaixe de 0,5%, com o qual o multiplicador (m=1/0,005) permitia criar 200 milhões de dólares com um só milhão em depósito. E no período da bolha, as reservas chegaram a ser inferiores a 0,001%, o que indica que por cada milhão de dólares em depósito real, se criavam 1.000 milhões do nada.

Esta foi a galinha dos ovos de ouro para a banca. Uma galinha que era de todas as formas insustentável e que foi assassinada pela própria cobiça dos banqueiros que se aproximaram do crescimento exponencial do dinheiro até que este entrou em colapso, demonstrando que toda a ficção se asfixia na conjectura e nada é senão o que é. A solução que os bancos centrais ofereciam era muito simples: mal havia um aumento da inflação, elevavam a taxa de juro para assim encarecerem o crédito e bloquearem os potenciais novos empréstimos (cortando, desta forma, potenciais novos empréstimos) e incentivando, a taxas mais altas, o “aforro” seguro dos prestamistas.

Entende-se agora o abismo em que estamos e por que razão governos e bancos centrais correm a tapar esses enormes buracos que o dinheiro falsamente criado deixou? Entende-se por que razão a Fed e o BCE correm a resgatar o lixo dos ativos tóxicos criado neste tipo de operações? Se ainda há dúvidas, deixo aqui este vídeo (ver acima) que pode ajudar a compreender parte importante deste fenômeno. Este documento foi realizado em 2006 e contém sérias advertências que não foram ouvidas nem pelos governos nem pelas pessoas. Por algo será".

(*) Artigo publicado em El Blog Salmón, traduzido por Ana Bárbara Pedrosa.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Mesa-redonda no PIBID CFP UFRB 2011


Justiça sem fronteiras

Wilson Correia*

O apoio social mais afirmativo é a justiça.

A pressão de Obama surtiu efeito e o Brasil lançou o programa “Ciência Sem Fronteiras” dia 26 de julho de 2011. Serão 75 mil bolsas de estudo no exterior, a ser usufruídas mediante contato com a "flexibilização curricular". Tem sido assim: país que se rende à incompetência para instaurar a justiça social apela para as cotas.
O sistema de cotas tornou-se um mal necessário ao capitalismo. Enquanto vige esse sistema, temos de conviver com esse mal. Se o sistema fosse capaz de oferecer condições reais de vida digna para todas as pessoas, as cotas já estariam obsoletas.
No entanto, como o propósito é o de amenizar a tensão social causada pela luta de classes que campeia as sociedades liberais, as cotas estão na moda. Esse é o “x” da questão. Como o QI (quem indica) aí é o Estado, os critérios de eleição se tornam cruciais.
Alguns problemas com o programa causam inquietação. Por exemplo: por que priorizar as áreas tecnológicas, lastreadas nas ciências exatas? O Brasil precisa mais de engenheiros do que de seres humanos, homens e mulheres, melhor qualificados?
Outra: por que a segunda língua do programa é o inglês? Por que um programa que se quer inclusivo não dá ao estudante o direito de ele próprio indicar o seu segundo idioma? Ou a “flexibilização curricular” só vale para os idealizadores desse programa? São fartos os exemplos históricos dando conta de que onde as armas não subjugaram, foi a língua que o fez. Se a proficiência em língua inglesa permanecer como critério de inclusão nesse programa, o sistema já não estará selecionando os pré-selecionados, uma vez que só quem estuda nos melhores colégios brasileiros chegam ao domínio desse “segundo idioma”?
Mais: se o idioma está sendo visto como um empecilho, um verdadeiro muro entre os propósitos do programa e a eleição dos participantes nele, por que, por exemplo, o Brasil não bateu o pé exigindo que, nesse projeto, os mestres falem a língua dos alunos? Não seria mais fácil encontrar professores bilíngues invés de exigir isso dos estudantes? Claro: dominar um segundo idioma é decisivo a cidadãos e a nações que querem se firmar diante do mundo... mas, por que o programa não adota a política de acolher a língua do estudante, prevendo que ele faça cursos de aprofundamento nessa sua segunda língua ao longo da participação nos cursos no exterior?
Ainda, se a Educação Básica brasileira não prepara as pessoas para o ingresso no ensino superior público, serão as cotas e a flexibilização curricular que irão corrigir essa distorção? Ora, no capitalismo, as cotas, como tudo mais nessa sociedade de mercado e de competitividade, são apenas para alguns. Enquanto isso, os problemas estruturais desse modelo societário continuarão “como dantes no quartel de Abrantes”.
Por fim, uma última indagação: por que, em lugar de lançar um programa de “Ciência Sem Fronteiras”, o Brasil não investe em construir uma sociedade de “Justiça Sem Fronteiras”, a qual, por oferecer condições dignas de acesso aos bens materiais, culturais e sociais produzidos pelo conjunto da sociedade, viesse a aposentar o sistema de cotas?
Ora, qualquer programa educacional somente ganha concretude quando se lhe agregam os objetivos da terminalidade. O que estamos vendo nesse projeto, além de voltar a alinhar a educação aí prevista ao modo estadunidense de “educar”, é que ele não manifesta a preocupação com a formação humanística, essa que evidencia que o homem, tragado pela tecnologia, agora precisa ser redescoberto pela razão instrumental.
“Justiça social sem fronteiras” é aquilo de que mais necessitamos. Isso, porém, parece estar fora da ordem do dia. Soa loucura externalizar esse desejo. Mas, como disse T. S. Eliot, “Em uma terra de fugitivos, tomar a direção oposta parece estar fugindo”.
Ao querer uma sociedade justa estamos caminhando rumo à utopia? Que mal tem? Enquanto a utopia for necessária, que ela cumpra a sua função de nos ajudar a lutar por uma sociedade que não precise mais de nenhuma utopia.

* Adjunto em Filosofia da Educação no CFP da UFRB.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Vigilância e punição na academia

Wilson Correia

Veja só esta notícia.
Um estudante da Harvard acessou a biblioteca virtual não comercial (“sem fins lucrativos”) e baixou arquivos na ordem de 5 milhões. Cinco milhões de artigos científicos! Trata-se de trabalhos acadêmicos das bases do MIT. Confesso que não entendi esta questão. Um aluno da Harvard “invade” os serviço de biblioteca virtual sem fins lucrativos e baixa 5 milhões de artigos acadêmicos hospedados em seus servidores dentro do Massachusetts Institute of Technology (MIT).
É bom lembrar que Harvard é a meca acadêmica do mundo corporativo capitalista, em que o “negócio” é o verdadeiro mestre e onde Barack Obama, atual mandatário estadunidense, andou estudando.
Mas, por conta da “invasão do espaço sagrado” do MIT, conexo nos propósitos com Harvard, o acadêmico em questão foi processado, preso e teve de pagar a bagatela de US$ 100 mil (cem mil dólares). Pior: ele ainda pode pegar 35 anos de xilindró! Poderá ver o sol nascer quadrado por conta de sua curiosidade, pressuponho. Vê a razão pela qual há o ditado que diz: “A curiosidade matou o gato”?
Curiosidade no capitalismo só se for para gerar lucro e proteger a lógica insana da acumulação. Ora, artigos acadêmicos são compreendidos como divulgação científica ou filosófica. Existem, de fato, para ser divulgados livremente e sem ônus para quem os acessa (note que a base era “sem fins lucrativos”). Não é pecado, não é crime, não é maldade acessar, baixar e fazer circular materiais dessa natureza.
Artigos científicos, por conta das características anteriormente ditas, não implicam remuneração de direitos autorais, não estão ali para ser tratados como uma mercadoria a mais. São a contraposição do autor à sociedade pela remuneração que essa sociedade lhe destina a título de salário ou rendimentos mensais. Mas, no mundo capitalista...
Essa notícia me embasbacou, mas não me deixou surpreso demais. Já vi gente ser morta a chutes por ter furtado margarina (lembra de Dourados, no Mato Grosso, onde um rapaz foi chutado por 20 pessoas até a morte por ter furtado o pote de margarina?). Gente presa por ter roubado outros potes de manteiga (lembram das domésticas que foram para a cadeia só por quererem a manteiga para melhorar o pão de cada dia?).
Crime famélico, por definição, “roubar para não morrer de fome”, não é pecado, nem crime. "Crime" da curiosidade intelectual, também não. Exceto se você está sob o mando daqueles que se consideram os donos do mundo. Isso no sistema capitalista, onde o “Saber, saber; negócios, à parte!”, sobretudo em Harvard e MIT, templos sagrados do deus Capital.

Sociedade do conhecimento?


Wilson Correia

De início, podemos tentar compreender uma distinção básica entre informação, conhecimento e saber, modalidades letradas e simbólico-culturais de entendimento do mundo, produzidas pelo ser humano. Segundo Charlot, as informações ele as registra em suportes materiais palpáveis externos. O conhecimento, interno, ele o apreende em sua subjetividade, de maneira dinâmica, para sempre ser reelaborado. O saber, intersubjetivo, uma ponte entre o interno e o externo, é constituído por aquelas informações e por aqueles conhecimentos que ele, humano, mobiliza para relacionar-se com o mundo, interagir com os semelhantes, com a sociedade, com o universo e com a vida (CHARLOT, B. “Da relação com o saber: elementos para uma teoria”. Trad. B. Magne. Porto Alegre: Artmed, 2000).
Informação é o dado produzido e registrado. Ela é feita sob a potencialidade e a possibilidade de ser distribuída por diversos canais informativos. A informação está no livro, no jornal, na revista, na internet ou simplesmente em um cartaz à minha frente. Porém, se a informação não recebe um tratamento cognitivo de atribuição de significação, ela para nada serve. É como quando você deixa de abrir sua caixa de e-mail: a informação está lá, ao alcance da mão, mas é como se ela não existisse para você, uma vez que foi abertamente ignorada.
Conhecimento é dado produzido e registrado ao qual já se acrescentou o sentido. Grosso modo, conhecimento é informação significada. Isso quer dizer que você leu, decodificou e compreendeu significativamente o teor da mensagem, tirando-a de sua base informativo-objetiva e transportando-a para seu mundo interno, para o reino de sua subjetividade. Ora, o mundo hodierno é pródigo em produzir informação, mas é mesquinho ao produzir condições de acesso à informação. A desigualdade social promove a distribuição e o acesso desiguais à informação.
Saber é aquela informação e aquele conhecimento que se apresentam ressignificados. Para além da objetividade da informação e da subjetividade do conhecimento, o saber exige a dinâmica relacional da intersubjetividade. Talvez seja por isso que Charlot adverte que o saber implica e oferece condições mediadoras favoráveis ao relacionamento com o mundo. Uma pessoa que não teve acesso à informação sobre “dúzia”, não leu e nem decodificou o sentido de “dúzia”, jamais poderá chegar no mercadinho da esquina e comprar uma “dúzia” de ovos.
Ouço amiúde que “vivemos na sociedade do conhecimento”. Tenho lá minhas dúvidas. Penso, até, que devemos “baixar a bola”. É na sociedade da informação que nos encontramos. E se formos indagar sobre o “onde”, o “quando”, o “o que”, o “por quem”, o “para quem” e o “por quê” das informações que são produzidas, registradas e distribuídas diariamente, nossas análises terão que ser complexificadas ainda mais. Há muito de ideologia, um outro tanto de interesse e mais uma carrada de “segundas intenções” nas informações atualmente disponibilizadas, acessadas ou não. Coisas que são descobertas mediante a articulação entre "texto" e "contexto".
Ora, articular “texto” e “contexto” já não seria mais sequer conhecimento. Talvez estivesse ao nível do saber. E sabedoria é raridade. Sobretudo nesse nosso mundo: da justiça perdida, da liberdade tolhida, da instrumentalização de tudo pelo mercado e da apatia em face da ação qualificada pelo entendimento iluminado pela compreensão. Oxalá as instituições educativas entendessem sua missão, essa que, para além do manuseio da informação, pudesse ser ponte para o conhecimento. Nem falo da escola propiciando a produção de saber: esse depende é de educação geral.

Fonte: RL